A voz pequena e tímida murmura alguns trechos da Ode à alegria, poema cantado no quarto movimento da 9ª sinfonia de Beethoven. Depois, lembra um pedacinho do início de Yesterday, dos Beatles. Por fim, recita o refrão de Como é grande o meu amor por você, de Roberto Carlos.
O gosto musical apurado não é de um senhor de meia idade, culto e erudito. É de um garoto de apenas 11 anos, de origem humilde, mas que descobriu que o amor pela música não conhece fronteiras sociais, culturais, econômicas ou geográficas. Vitor Barbosa aprendeu que, para amar, basta ouvir o coração e tocar com a alma.
A família de Vitor queria que o filho tivesse mais oportunidades de lazer e cultura. Entretanto, o orçamento apertado no final do mês não permitia que os pais pagassem para ele aulas de natação, inglês, desenho ou qualquer outra coisa do gênero. Foi então que a mãe do garoto soube do Projeto Retocar.
Desenvolvido pelo Instituto Selecta, o projeto ensina violão clássico para meninos e meninas de baixa renda de Goiânia. Acostumados a outras alternativas de música e de lazer, os alunos vão aprendendo a técnica aos poucos, em meio a um repertório com Bach, Beethoven, Mozart, Villa Lobos, Tom Jobim, entre outros. Eles também são estimulados a desenvolver valores como disciplina, respeito e solidariedade.
Vitor começou suas aulas no Projeto Retocar aos oito anos. Os professores imaginavam que fossem ter trabalho com o garoto pequeno e inquieto que chegara para aprender violão. Mas o fato é que ele surpreendeu a todos, tanto pela disciplina, quanto, sobretudo, pelo enorme talento e dedicação ao domínio do instrumento.
O garoto aprendeu a tocar violão com tamanha facilidade que, rapidamente, superou os colegas de turma e passou a estudar com alunos mais velhos, de 14 anos. É uma das revelações mais promissoras do projeto. Para intensificar o aprendizado, ganhou de presente do pai um instrumento, que, agora, é também amigo de todas as horas.
“Adoro ficar dedilhando o violão no meu quarto, tocando as canções que aprendo na aula”, conta Vitor. Mas o quê os amigos e colegas da escola acham dessa paixão pela música? “Eles também passaram a gostar. Sempre me pedem para dar uma palinha e, quando percebem, também já estão apaixonados pelo violão”, diz, sorrindo.
Quando perguntado sobre o quê quer ser quando crescer, Vitor responde rápido: “Músico!”. Não há possibilidade de mudar de ideia no meio do caminho? E se alguma coisa mais interessante aparecer? “Sem chance. É isso o que quero fazer para sempre”, sentencia, decidido.
Intrigada com tamanha certeza e tão pouca idade, a repórter resolve pesquisar sobre o tema e descobre que, na maioria das vezes, os grandes músicos e compositores decidiram que queriam enveredar-se pela carreira artística durante a infância ou, no máximo, no início da adolescência.
Mas não é fácil realizar o próprio sonho. Ainda mais quando se tem condição financeira desfavorável e pouco tempo disponível para o estudo do instrumento – as aulas são ministradas pelo professor de música duas vezes por semana e Vitor também precisa se dedicar à escola.
“A gente sempre dá um jeitinho. Treina um pouco mais à noite, nos finais de semana e feriados. Basta querer que dá certo”, ensina com simplicidade desconcertante o garoto. “Além do mais, existe uma coisa que compensa tudo”, observa. A repórter indaga o que é. “A alegria do público, que nos aplaude no final das apresentações. Isso não tem preço”, confessa.
Beethoven dizia que não há nada mais belo do que distribuir a felicidade a muitas pessoas. Nas apresentações que faz hoje, juntamente com a banda do Projeto Retocar, Vitor comprova a afirmação. “Ver as pessoas sorrindo e se emocionando é muito legal. Quanto mais toco, mais tenho certeza que quero fazer isso”, frisa.
Ao mesmo tempo em que precisa aprender a manusear o violão, Vitor também tem de aprender a dominar a si próprio. É preciso ter disciplina para dar continuidade aos estudos e aperfeiçoar, dia após dia, a técnica adquirida. É necessário ter persistência para driblar as dificuldades impostas por acordes e melodias mais elaborados.
Também é preciso ter solidariedade e espírito de equipe; perceber que, num concerto, o mais importante é que cada um dê o melhor de si, sem vaidade excessiva, para que o todo seja impecável. A gente cresce como pessoa quando aprende a tocar um instrumento, Vitor? “Ô, se cresce”, atesta, aos risos.
A repórter agradece a entrevista e deixa o garoto ir. A aula de violão está prestes a começar. Tão pequeno e tão sábio, ele encarna o que Walter Franco já ensinava, e que Leila Pinheiro, com sua bela voz, eternizou: “Viver é afinar o instrumento/ De dentro pra fora, de fora pra dentro/ A toda hora, a todo momento/ De dentro pra fora, de fora pra dentro”.