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As águas azuis do Tapajós

28.05.2024 - 08:09:05
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Jéssica saiu de casa aos 14 anos, quando o namorado da mãe, um colombiano comprador de castanha, violentou-a. 
 
Contou para a mãe, mas Aurora culpou a filha. Chamou-a de puta. Sugeriu, aos berros, que ela ficava se insinuando com pouca roupa pela casa e pela favela. Espancou-a, quebrou as poucas louças e móveis da palafita onde moravam sem se comover com o choro desesperado dos filhos pequenos.
 
Aurora tinha pouco mais de 30, mas a vida, primeiro, de garimpo em garimpo, depois, de favela em favela, o trabalho duro como faxineira, as várias gestações e abortos e a cachaça, cobravam seu preço, e ela parecia muito mais velha. 
 
Desde que conhecera Pablo, os dois viviam embriagados a maior parte do tempo. Era ele chegar do rio e desciam pro boteco na Ponta Branca, onde passavam dias e noites à base de Aveludado, um licor de cacau barato feito com a polpa da fruta e álcool de farmácia.
 
Jéssica ficou mais triste pelos irmãos pequenos do que por si própria. Era praticamente mãe dos três. Era ela quem fazia a comida com o que havia – volta e meia, saía pela vizinhança pedindo uma xícara de arroz, dois ovos, um abacate -, ela quem dava banho no pequeno que ainda mal falava e vivia imundo, chafurdando o dia todo na água suja dos igarapés, ela quem ajudava o maior nas tarefas da escola, feitas à luz de lamparina, pois não tinham energia em casa desde a mudança para Educandos. Antes, tinham morado no Morro da Liberdade, em uma casa até melhor, mas Aurora fora jurada de morte por uma vizinha que a surpreendera na cama com seu marido e precisaram se mudar.
 
Os irmãos ficariam sozinhos, mas seria melhor. Depois do que ocorrera, com ela em casa, a mãe acabaria descontando sua raiva nos pequenos.
 
Pegou 80 mil cruzeiros que encontrou no bolso da camisa de Pablo, aproveitando que ele e Aurora dormiam profundamente – depois da enorme briga, os dois tinham se fechado no quarto e a vizinhança toda ouvira seus gemidos e gritos.
 
Era madrugada, e Jessica vagou pelos becos da favela até chegar à porta da Igreja de Santa Luzia, onde os fiéis já se aglomeravam para a primeira missa do sábado. Atravessou em direção ao centro e desceu até o Porto de São Raimundo. Suspirou admirada com o Rio Negro prateado pela luz do começo do dia. Das poucas lembranças que tinha do pai, uma era de um passeio na apertada voadeira dele, saindo do Negro e subindo pelo Tarumã-Açu, quando vira os botos pela primeira vez.
 
O pai, seu Raimundo, ganhara o mundo para nunca mais voltar quando ela tinha apenas cinco anos. A mãe sempre falava dele com revolta e amargura – que abandonara a família por uma rampeira de Rio Preto da Eva. Jéssica se lembrava do bigode farto, de seu cheiro de fumo de rolo e de um boné surrado verde e branco onde se lia: "Com Manah, adubando dá".
 
Observou por um tempo o movimento crescente dos barcos, dos enormes recreios apinhados de redes e gente às pequenas voadeiras que riscavam o rio, já dourado àquela hora, trazendo e levando gente e mercadorias. 
 
O Negro estava bastante baixo, e o caminho que os estivadores tinha que percorrer entre a doca e o mercado, carregando fardos imensos de mercadoria, era longo e cansativo. Todos chegavam à calçada do mercado ofegantes, com rostos, peitos e dorsos riscados de suor. Ainda assim, um senhor magro e grisalho, curvado sob o peso de sua carga, sorriu para ela ao ganhar a rua.
 
Dois homens tostados pelo sol conversavam ao seu lado. Um deles explicava que a cozinheira de seu barco fora internada com malária e que, por isso, buscava uma substituta para zarpar, ainda naquele dia, rumo a Santarém.
 
Veio-lhe outra memória de Raimundo, que lhe dissera que o Tapajós – que, Jessica sabia, juntava-se ao Amazonas em Santarém -, era o rio mais bonito do mundo, com suas águas azuis e praias da areia mais branca. Só podia ser um sinal.
 
Ela não teve dúvidas e se ofereceu ao capitão. O sujeito a olhou de cima a baixo desconfiado da sua pouca idade, mas Jessica disse que sabia fazer arroz, feijão, pirão, limpar peixe e assar carne. O homem lhe ofereceu 10 mil cruzeiros por dia e mandou-a comprar uma rede e se apresentar no Marechal Rondon – seus dedos grossos e peludos apontando para o barco atracado bem à frente deles, na lama da margem, em torno do qual a movimentação de pessoas e cargas era grande.
 
Sentiu uma pontada no ventre e se lembrou de algo que entreouvira a mãe falar, certa vez, a uma amiga. Atravessou a rua, adentrou o mercado e encontrou o que procurava. A índia de rosto enrugado como papel amassado indicou-lhe a garrafada e disse que deveria tomar um copo à noite durante sete dias.
 
Enquanto desciam o Amazonas, teve cólicas terríveis e sangrava sem parar, mas conteve o medo e o choro e cumpriu suas funções na cozinha do barco, trabalhando 18 horas por dia durante os cinco dias que a viagem durou – pois o Marechal Rondon parava e se demorava em várias cidades ao longo do caminho.
 
Chegando a Santarém, desmaiou ao descer do barco. Em meio à névoa, viu o movimento de pessoas à sua volta e alguém a tomou nos braços. Viu o sangue que descia entre suas pernas manchando a saia amarela que usava. Ainda teve tempo de sentir tristeza, pois se deu conta de que morreria sem ver o Tapajós.
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por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

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