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04.06.2024 - 07:55:10
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São estranhas as maneiras pelas quais, em nossa vida, o sentido se estabelece, muitas vezes, pela conexão entre pessoas, eventos, ideias e lugares aparentemente díspares.
 
Pensei isso, nesse último final de semana, enquanto assistia ao belo Antonio Candido, Anotações Finais, documentário de Eduardo Escorel, que terá, na próxima semana, sua segunda exibição durante o FICA, o Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental, que acontece entre 11 e 16 de junho, na cidade de Goiás.
 
O filme, com a narração inspirada de Matheus Nachtergaele, traz anotações dos dois últimos cadernos escritos pelo sociólogo e crítico literário até pouco antes de sua morte, em maio de 2017. É um retrato, a partir de fragmentos, da intimidade de um homem idoso e de seu olhar, um tanto perplexo e melancólico, sobre o Brasil, país e ideia que mobilizaram toda a sua vida e sua carreira profissional e intelectual.
 
Antonio Candido entrou na minha vida através de seu Os Parceiros do Rio Bonito, um de seus trabalhos seminais, baseado em sua tese de doutorado. Parceiros mostra, não sem uma indisfarçada dose de afeto, como a transformação econômica do campo, especialmente nos interiores de São Paulo, Minas e Goiás, tornou seus moradores um tipo de exilado cultural. Com a chegada da modernidade e do capitalismo, o caipira se converte em uma figura anacrônica e impotente, pois sua sociabilidade, cultura e universo simbólico deixam de oferecer as ferramentas para se situar e sobreviver em um mundo de relações agora regidas pela racionalidade, pelo cálculo e pelo dinheiro.
 
Não apenas seu livro começou a explicar para mim o que estava em jogo no interior do Brasil, oferecendo uma chave para entender os conflitos de lugares com que tinha uma relação afetiva – como a Chapada dos Veadeiros que estudei no mestrado -, como me permitiu enxergar com outros olhos minha própria história familiar e quem sou.
 
A família de minha mãe é, de um lado, formada por uma longa linhagem de pequenos proprietários rurais do sudoeste de Goiás e, de outro, por um avô que, separado da mãe ainda adolescente, no Triângulo Mineiro, tornou-se peão de boiada e acabou conhecendo minha avó às margens do Rio Claro, em Jataí.
 
Minha mãe, portanto, nascida em 1948, é fruto ainda desse Brasil cuja transformação e quase desaparecimento são tão bem narrados e analisados por Antonio Candido em seu livro; Brasil que, apesar de pretérito, se faz ainda presente na cultura do Centro-Oeste e do interior paulista e na força do agro e do sertanejo nos dias de hoje.
 
Em certa passagem do filme, Antonio Candido revela que, apesar de seu amor pela poesia, os poemas nunca lograram, para si, cruzar a ponte entre a admiração pela via da razão e a emoção do corpo. Para ele, esse impacto físico só acontecera com a ficção narrativa. Tão marcantes foram certos livros que sua memória se plasmara aos lugares onde os lera pela primeira vez – e cita, por exemplo: “Em 1956, na Rua Perdões, o Grande Sertão: Veredas”.
 
O Grande Sertão foi, para mim, como para Antonio Candido, desses livros que, mais que cruzarem essa fronteira, mesclaram reações oriundas da razão – a admiração pelo domínio da forma e pela capacidade de incorporar a linguagem do sertanejo – e do corpo – a comoção com uma paixão impossível, a angústia com a crueza da violência.
 
De outras formas, também o romance de Guimarães Rosa iluminou essa ponte entre passado e presente e a relação entre o Brasil do sertão e o Brasil urbano que, em alguma medida, me constituem. 
 
Como para Antonio Candido, esse livro, plasmou-se, para mim, no espaço e no meu tempo de vida. Lembro-me vivamente de onde e quando ganhei meu primeiro exemplar, em 1996, de um querido amigo que, poucos meses depois, deixou-nos de forma precoce. Na folha de rosto, em sua letra bonita, a dedicatória reproduz a célebre frase de Riobaldo: “Pedro, o diabo não há! É o que eu digo, se for…Existe é homem humano. Travessia!”

A dedicatória no meu primeiro exemplar de Grande Sertão: Veredas
 
Nossa capacidade para o mal, tema que atravessa o Grande Sertão, também emerge nas anotações de Antonio Candido, perplexo, em seu último ano de vida, com a convulsão política do Brasil. Nela, alheios a toda a desigualdade e ao sofrimento humano, deputados, ao mesmo tempo em que maquinam todas as artimanhas possíveis para escaparem às investigações contra a corrupção, avançam no impeachment de Dilma, num show de horrores que escancarava todo o atavismo de nossas estruturas sociais e políticas – e não apenas a indiferença à desigualdade, mas sua profunda dependência dela.
 
Não podia o filme deixar de ser também uma narrativa sobre a velhice. Nesse sentido, apesar da perplexidade e tristeza diante de um Brasil que teima em permanecer refém das piores forças que o compõem, Candido afirma que a idade, de certa forma, o protegia. 
 
Em lugar da revolta, certa resignação, talvez sobretudo pelo refúgio no passado – não o passado do Brasil, nesse caso, mas seu passado pessoal: na família, na infância, nos lugares da memória e, sobretudo, na mulher. Falecida em 2005, Gilda de Mello e Souza, filósofa e crítica literária, foi casada com Antonio Candido por mais de 60 anos. Ele reitera o quanto o amor e o casamento foram, em larga medida, sua principal obra e um “imerecido prêmio”. A saudade dela foi a emoção principal de seus últimos anos.
 
“O lento e incessante despovoamento do mundo a que pertencemos começa lentamente a se acelerar”, diz ele sobre a velhice. Se, prestes a completar 50, já me sinto, volta e meia, como se não pertencesse ao presente, imagino o quão intensa deva ser essa sensação aos 98, idade da morte de Antonio Candido, ou mesmo aos 86, idade em que meu pai faleceu – inevitável, nesse sentido, pensar nele enquanto assistia ao filme, tanto pelas reflexões sobre a velhice, quanto pelo perfil algo semelhante de um intelectual que, por seus caminhos específicos, também misturava amor e repulsa pelo Brasil. 
 
Na velhice de meu pai, agravada pelo Alzheimer, parecia se sobressair essa sensação de não mais pertencer, de ter se tornado uma pessoa na hora errada, deslocada no tempo. Em seus últimos momentos, como os caipiras de Os Parceiros do Rio Bonito, meu pai parecia um homem cuja constituição interna já não lhe permitia se situar e agir num mundo que se tornara estranho. 
 
Talvez, para quem olha de fora, seja mais angustiante do que para quem vivencia. As palavras serenas de Antonio Candido em seus diários sugerem que essa progressiva desconexão oferece, em contrapartida, uma gradual pacificação com a morte. Morrer em idade avançada, afinal, não é somente o paulatino desligamento do corpo, mas também esse corte, aos poucos, da conexão entre nós e esse mundo que nos gerou e que nos constitui, mas que, no fim, se torna irreconhecível.
 
——-
P.S.: A exibição de Antonio Candido, Anotações Finais acontece no dia 14/6, às 19h30, no Teatro São Joaquim, em Goiás; no dia seguinte, sábado, 15/06, a partir das 9h, o filme será reprisado no mesmo local; em seguida, haverá um bate-papo com o diretor Eduardo Escorel e o ator Matheus Nachtergaele.
 
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por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

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