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Como a Ciência morre?

13.08.2024 - 07:48:45
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A crise da democracia está em pauta. Não passa um dia sem que artigos de jornal sejam publicados sobre o assunto. A cada golpe, fraude eleitoral ou mudança constitucional neste ou naquele país, surgem novas análises, livros são publicados, podcasts editados. E é bom que seja assim. Hoje, é Nicolás Maduro, na Venezuela, antes, Javier Milei, na Argentina, a estranha tentativa de golpe na Bolívia, a incapacidade do Equador em lidar com o crime organizado, Daniel Ortega, na Nicarágua, a onipresença de Bolsonaro em nosso cenário político, a possibilidade do retorno de Trump, nos EUA, a ameaça da extrema-direita, nas eleições francesas, o Brexit, no Reino Unido, Viktor Orban, na Hungria, ou o mafioso Putin, na Rússia, e assim por diante. A democracia de fato está ameaçada no mundo todo.
 
Todavia, a crise da democracia é apenas a superfície, de certa forma, ou a contraparte, de outra crise mais basilar a que prestamos quase nenhuma atenção e sem cuja resolução não resolveremos a da própria democracia: vivemos também uma crise do conhecimento ou, mais especificamente, da Ciência.
 
Se a crise política coloca em questão a maneira pela qual regulamos a vida em sociedade, a crise do conhecimento põe em xeque a forma pela qual entendemos o modo como produzimos conhecimento e as formas pelas quais esse conhecimento também ajuda a ordenar nossa vida coletiva.
 
Tornou-se quase um lugar comum dizer que a democracia está em crise em função de suas promessas não cumpridas por mais igualdade. O aumento da concentração de renda e da desigualdade nos países, a persistência da pobreza e a corrupção põem em questão a eficácia de nosso sistema político. 
 
Não seria errado, nesse sentido, dizer que também a Ciência está em crise por suas promessas não cumpridas. Terraplanismo, movimentos antivacina e negacionismo climático são apenas a face mais extrema dessa convulsão que abala nossa confiança no conhecimento científico. Mas que promessas não cumpridas seriam essas da parte da Ciência?
 
Talvez, para ela, o mais correto não seja falar em promessas, termo que remete a um lugar futuro desejado, mas sim em “garantias não cumpridas”. 
 
A Ciência moderna, central em nosso mundo, se assenta sobre três garantias básicas: os fatos, a neutralidade do método e sua contribuição para o progresso. 
 
Em síntese, ela nos afirma que existe uma natureza anterior à humanidade e que é dela independente. Essa natureza é regida por leis próprias a que o método científico oferece acesso privilegiado. Com base nesse acesso, a Ciência extrai fatos objetivos e universais que constituem a própria essência da realidade. Podemos, nesse sentido, ainda não entender a essência de determinadas leis e fatos naturais, mas eles se encontram lá. Nós mesmos, enquanto espécie, somos produto desses fatos, não temos o poder de alterá-los e é apenas questão de tempo para que a Ciência os compreenda de forma mais precisa, permitindo que manipulemos de maneira cada vez mais sofisticada a natureza.
 
Como os fatos não guardam qualquer relação com a cultura ou com aquilo que é específico do humano, a Ciência é neutra. As verdades que ela expõe não são afetadas por pontos de vista subjetivos. Em função dessa neutralidade, a Ciência não pode ser responsabilizada pelos efeitos do conhecimento que produz. A tecnologia e os impactos que ela tem sobre a realidade são uma consequência do conhecimento científico, mas a forma como avaliamos seus impactos não deve interferir nas escolhas dos cientistas, que lidam apenas com fatos. Seria nocivo que julgamentos de valor e questões como adequação social ou impacto ambiental passassem a definir os rumos da própria pesquisa. 
 
O conhecimento deve apenas avançar, de forma não contida e limitada somente pela própria capacidade dos instrumentos disponíveis e dos métodos dos cientistas. Se a tecnologia tem efeitos colaterais nem sempre positivos, isso não pode ser colocado na conta da Ciência, ainda que ela seja a principal impulsionadora daquilo a que chamamos de progresso. 
 
O progresso, com a Ciência como locomotiva, também não deve parar, pois será seu próprio avanço que trará soluções para os efeitos colaterais que produz.
 
Não obstante, a sombra dos problemas ambientais, que ameaçam o futuro da própria humanidade, e a persistência e aumento da desigualdade social evidenciam, de uma forma que já não é mais possível negar, que a Ciência é também parte do problema, e não exatamente a fonte de soluções que teimam em ser sempre adiadas. 
 
Não se trata todavia de dizer que o problema resida somente na captura da Ciência pelos interesses econômicos. Isso é também verdade, mas a questão é mais profunda. Se ficamos somente nessa constatação, corremos o risco de acreditar que o problema se circunscreve à esfera da política e resumi-lo, uma vez mais, a uma crise de representação política. A questão, nesse sentido, residiria apenas na imperfeição da própria democracia, que permitiria a corrupção do sistema político e essa captura da Ciência.
 
Ocorre, entretanto, que o mencionado tripé de garantias que sustenta a própria Ciência como a entendemos é anterior ao capitalismo e parte fundamental dele. Como dito, essa trinca justifica e sustenta a ideia de um conhecimento sobre o qual as pessoas comuns não não têm qualquer poder, ainda que ele produza impactos muito concretos sobre suas vidas, em relação aos quais a Ciência lava as mãos – que o digam os milhares de vítimas do acidente com o Césio 137 em Goiânia, em 1987, os milhões de afetados pelo amianto mundo afora, os contaminados por agrotóxicos, ou ainda as multidões de obesos e diabéticos geradas por um sistema agroalimentar baseado na uniformização e em produtos ,ultraprocessados.
 
As teorias conspiratórias que levam à desconfiança das vacinas ou à revolta contra as medidas restritivas impostas durante a pandemia da Covid-19, o negacionismo climático ou o terraplanismo, são apenas os sintomas mais radicais de uma profunda insatisfação e da verdadeira sensação de impotência diante da falência dessas garantias, desde sempre ilusórias, oferecidas por essa ideia específica do conhecimento científico.
 
Como defende a filósofa belga Isabelle Stengers, é preciso “desacelerar as ciências”, convocá-las a descer do pedestal e a se abrirem ao entendimento com a sociedade. Isso significa não somente permitir que os cidadãos possam ajudar a definir as perguntas pertinentes para a produção do conhecimento, mas também tornar a ciência mais humilde, encarada em pé de igualdade com outras formas de conhecimento. 
 
Isso implicaria em colocar Darwin em pé de igualdade com o criacionismo dos religiosos? Talvez, de certa forma, sim, mas o fundamental é perceber que a Torre de Marfim que levou à perda de confiança na ciência é a própria causa de seu enfraquecimento e não uma garantia para sua integridade – da mesma forma que o Muro de Berlim não foi garantia nenhuma se os problemas se encontravam no seio do próprio socialismo.
 
O muro já ruiu, como o de Berlim. Melhor que o derrubemos de vez. Todo conhecimento deve ser medido pela qualidade da experiência coletiva que propicia. A ciência não perderá nada em olhar e ser olhada de um mesmo nível. Todos ganharemos.
 
Se, conforme o título célebre do livro de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, as democracias morrem por suas promessas não cumpridas, as ciências, de seu lado, morrem pelas garantias que já não podem oferecer e pelos efeitos colaterais complicados que produzem.
 
(Não se enganem: sou cientista e apaixonado pelas ciências. As ideias de Darwin, Einstein e Freud são o que de mais revolucionário a humanidade já produziu).
 
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por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

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