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Mulheres da arte goiana (continua)

27.10.2024 - 09:35:43
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Há exatamente um ano, em outubro passado, inaugurava, no Pathernon Center, a mostra "Minha vida está aqui: Saída Cunha e sua coleção", com curadoria de Divino Sobral, onde a arquiteta, artista, professora e colecionadora goiana abria as portas de sua vida para contar sua trajetória cultural que se funde à história de Goiânia. Saída (Rio Verde/GO,1942) foi discípula e, ao mesmo tempo, mentora de Frei Nazareno Confaloni, transitando livremente entre as artes plásticas e a arquitetura com licença poética fluída e engajada. O carisma e a presença extasiante desta mulher são unânimes e, toda vez que a encontro, brinco que se tornou "Patrimônio Cultural da Goianidade". 
 
Assim como Saída, o conjunto de obras da artista Marilda Passos (Goiânia/GO, 1948) tem um peso patrimonial. Marilda abandonou a carreira do Direito e dedicou seu talento às artes visuais. Também integra a galeria a céu aberto na Praça Universitária com uma escultura em formato orgânico, tendo como viés principal em sua produção, a abstração. Em 2018, participou da mostra coletiva "Em nome da Mãe", com minha curadoria, ao lado de outras três mulheres: Simone Simões, Adriana Mendonça e Emília Simon.
 
A artista Selma Parreira (Buriti Alegre/GO, 1955) tem um vasto currículo e mantém uma carreira artística bem atuante. Foi minha professora na especialização em Arte Contemporânea, na FAV/UFG (2004) e recentemente pude visitar sua mostra individual "Mar de Incertezas" (2024), para confirmar a lucidez e serenidade de sua produção. Um fato curioso foi quando nos anos 90, minha mãe teve uma de suas ideias vanguardistas e escolheu uma obra de Selma para estampar o outdoor na campanha publicitária para divulgação da nova sede da galeria. Aquilo foi fantástico, era a primeira vez que alguém investira neste tipo de marketing direcionado às Artes Plásticas. Nunca esquecerei das quatro palmeiras (ou guarirobas) coloridas de Selma, sobre um fundo azul claro, na escala de 10,0 x 5,0 m, num prenúncio de um tempo tão feliz e tropical para a cultura goianiense.
 
Seguindo a vibe escorpiana de nossa querida Capital, seja por coincidência ou não, a artista mineira Helena Vasconcelos (Uberlândia/MG, 1953), que tem Sol em escorpião e ascendente em aquário, não nega as origens regionais, nem as esotéricas e adotou Goiânia como lar, há mais de 40 anos. Senhora de uma sensibilidade ingênua, mas cheia de sagacidade, Helena pinta o folclore brasileiro com a destreza que Poteiro esculpia seus potes. Sua arte näif dialoga com a cultura erudita, com a cultura de rua, com a cultura raiz, a cultura matriz. 
 
Como não incluir a menina luz, Ieda Jardim (Goiânia/GO, 1969) no histórico destas mulheres da arte goiana. Conheci Ieda na mostra coletiva, na galeria, com a curadoria de mamãe, em 1998, ao lado de seu inseparável companheiro, Leo Romano e outras duas mulheres, Dauglacy Calixto e a fotógrafa Maria Célia. Ieda produziu uma instalação lúdica, feminina e cheia de mensagens subliminares, que remontavam Alice no país das maravilhas, o surrealismo de Dalí, as imagens pictóricas de Miró, o movimento colorido de Calder e as banheiras vitorianas do século XVII. Um misto de infância com malícia, delicadeza e agressividade, sonho e pesadelo. Ieda denuncia com suavidade o sentimento mais escorpiano que podemos ter e joga luz sobre as sombras, nos lembrando que somos todos ambivalentes e vulneráveis.
 
Por fim, a pisciana Fabíola Morais (Goiânia/GO, 1967), que tem formação em arquitetura, é desenhista, pintora e uma faminta pesquisadora. Foram textos seus, publicados no extinto e excêntrico site do Goiás|Texas que me inspiraram a escrever. Fabíola tem um olhar apurado para arte no design ou para o design na arte. Intercambia formas e símbolos para manifestar a cultura do cerrado, as lendas indígenas, a origem do Cosmos. Atualmente vive e trabalha na Chapada dos Veadeiros, que há tempos tem sido um chamado por ela, um recanto no coração do Centro-Oeste, um (((amor))) de longa data.
 
Mulheres diversas que registram seu tempo, sua versão da humanidade e nos presenteiam com a arte, a sensibilidade de seus olhares e suas percepções.
 
Este foi meu parecer pessoal sobre as mulheres da arte goiana, que tenho o privilégio de conhecer e conviver. 
 
Este foi meu presente à Goiânia, esta cidade escorpiana, que embora pareça arisca, é regida pela feminilidade do elemento água e atua em contrastes misteriosos, secretos, mas inegavelmente leais!
 
Vida longa a goianidade!
 


Lambes por Fabíola Morais na mostra "Gyn 7", em 2006

 


Tatiana Potrich e Helena Vasconcelos 

 


Tatiana Potrich, Helena Vasconcelos e Saída Cunha na mostra "Terra Plena", março/2024

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por Tatiana Potrich

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