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Vítimas de nossas escolhas

28.03.2013 - 16:07:33
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Goiânia – Cena 1: A moça chora porque foi traída (de novo) pelo namorado. Queixa-se que ele é ausente e não lhe dá a atenção merecida. Diz que ele fez da sua vida um inferno e acabou com sua autoestima. Não entende a razão de ser tão maltratada e torce para que ele mude e consiga trazer paz à sua vida outra vez.
 
Cena 2: O homem reclama que sua mulher é histérica, grita com ele o tempo inteiro e  pensa apenas em gastar. Fala que não consegue mais pagar a fatura estratosférica do cartão do crédito e que ela o está levando à falência. Procura um terapeuta e alega que a causa de todos os problemas é a esposa descontrolada. 
 
Cena 3: A mulher espalha para todos os colegas de trabalho que está exausta e não suporta mais as cobranças do chefe. Conta que é explorada o tempo inteiro, queixa-se que seu salário é uma miséria e que não vê a menor perspectiva de crescer na empresa. Acha que vai morrer pobre e estressada. 
 
Cena 4: O rapaz diz à família que se arrependeu do curso universitário. Fala que o mercado é restrito e o que o único jeito de ganhar dinheiro é passar num concurso. Mas ele tem certeza que nunca será aprovado, porque enquanto alguns privilegiados só estudam, outros têm de conciliar trabalho e estudo, como ele. Melhor nem tentar.
 
Pequenos recortes do cotidiano, que mostram o complexo de vítima que nos assola diariamente. Se não somos felizes, se não ganhamos dinheiro, se não crescemos profissionalmente, é porque o outro nos impede. Alguém ou o mundo sempre se coloca em nosso caminho e nos tolhe, humilha, oprime.
 
É evidente que a maneira como somos tratados, compreendidos ou não pelos outros, influencia na nossa forma agir e no sentimentos que cultivamos. Mas discordo veemente quanto ao fato de atribuir a outras pessoas a responsabilidade pela nossa (in) felicidade. Essa é uma tarefa única e exclusiva de cada ser humano.
 
Não sou humilhada pelo meu namorado que me trai e me ignora. Submeto-me ao comportamento dele e aceito sua infidelidade. Escolho suportar todas as traições e esperar passivamente que ele mude. Não sou explorado financeiramente pela minha mulher e ser humilhado por seus gritos e escândalos. Escolho bancar seus gastos e reforçar sua atitude imatura, egoísta e grosseira.
 
Não sou uma pobre coitada que trabalha para um chefe frio e maldoso, que me julga uma incapaz. Sou alguém que escolhe reclamar sem parar e perde tempo criando intrigas entre os colegas, em vez de me especializar e fazer cursos me deem a possibilidade de crescer profissionalmente.
 
Não sou um infeliz que se formou numa área com mercado saturado e que agora será pobre para sempre, porque é difícil demais estudar mais e passar num concurso. Sou alguém acomodado e medroso, que prefere culpar o mundo que me cerca pelas minhas escolhas. Eu escolho permanecer inerte, enquanto o mundo muda.
 
Trazer a responsabilidade de nossos êxitos e fracassos para nossas próprias mãos pode ser muito doloroso. Exige autocrítica suficiente para reconhecer nossos defeitos, aceitar que temos falhas que precisam ser corrigidas e que é em função delas que padecemos tanto. Mas também pode ser libertador, na medida em que percebemos que mudança depende exclusivamente da nossa atitude. 
 
Ao longo desses quase dois anos de existência da coluna Inspiração, venho aprendendo que a felicidade não é uma condição que se apresenta por milagre do destino, mas uma questão de escolha. Escolhemos, a cada instante, prosseguir no caminho que nos causa dor e sofrimento, ou mudar de rota. E temos de arcar com as consequências de cada uma dessas escolhas, inevitavelmente. 
 
Uma personagem em especial tornou essa lição bem clara para mim. É a psicóloga Gissela Carneiro, que foi tema de uma das minhas primeiras colunas. Ela teria todas as razões para encarnar o complexo de vítima: tetraplégica desde os 7 anos e oriunda de uma família extremamente humilde.  
 
Mas Gissela sabia que o destino estava em suas mãos Desafiando a tudo e a todos que não acreditavam na sua capacidade, ela estudou, formou-se em Psicologia, passou num concurso público, fez pós-graduação, casou-se e teve dois filhos. Exibe uma alegria de viver rara, transmitindo entusiasmo e força a todos que cruzam seu caminho.
 
Não somos vítimas, mas protagonistas de nossas vidas. Já que Páscoa é renascimento, aproveite a Semana Santa para renascer mais forte e consciente. A Paixão de Cristo nos lembra que dor e transformação caminham juntas. Como dizia Jung, “não há despertar de consciência sem dor. As pessoas farão de tudo, chegando aos limites do absurdo, para evitar enfrentar sua própria alma. Ninguém se torna iluminado por imaginar figuras de luz, mas por tornar consciente a escuridão”.   

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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

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