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O rei Midas e os pés limpinhos

21.01.2025 - 08:48:35
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Foi só no penúltimo dia de caminhada que a ficha caiu. A despeito das paisagens deslumbrantes e do prazeroso estado de espírito proporcionado pela trilha havia muito planejada em Torres del Paine, eu sentia que algo parecia faltar, que uma peça não se encaixava, que talvez eu estivesse diferente e não conseguisse mergulhar plenamente na caminhada.
 
Com uma cerveja na mão, me deitei, meio sobre a grama, meio sobre a terra, em frente à barraca. O sol, que já ia baixo por trás da cortina de pinheiros, aqueceu meu rosto, enquanto uma forte rajada de vento soprava e eu observava os contrafortes gelados do Cordón Olgun, fileira de montanhas na face oeste do Maciço do Paine. Minha mão se enlameara ao apoiá-la no chão para me deitar, eu a limpei na calça já engordurada por cinco dias de uso e então entendi do que sentia falta: era da sujeira. 
 
Sim, hábitos de higiene são uma das grandes conquistas modernas. Evitam que peguemos doenças e morramos cedo. Mas temos uma obsessão desmedida pela limpeza que me parece ser uma das marcas mais evidentes de nossa ilusão de separação da natureza. Somos da “cultura do pé limpinho”, para usar as palavras de um velho amigo. 
 
Talvez seja só algo pessoal ou aquilo que um psicanalista atribuiria a uma pulsão mal resolvida. Confesso entretanto que a oportunidade de deixar de me importar com certo nível de sujeira produz um grande alívio e representa uma espécie de ritual de passagem para o prazer que sinto no mato e nas montanhas. Conviver com a terra dentro da barraca, me conformar com  as mãos engorduradas e usar pratos menos que limpos são componentes fundamentais da experiência de montanha e trilha. Eles marcam a saída dessa ilusória bolha de assepsia e a possibilidade de transcender a cisão entre o natural e o social. Conexão com a terra (embaixo das unhas sobretudo), diriam os mais hippies?
 
Naquele instante, no Camping Grey, olhando para as montanhas nevadas e sentindo o vento frio soprado pelo Gelo Patagônico Sul, a maior geleira do mundo fora da Antártica e da Groenlândia, a constatação de estar sujo e não me importar com aquilo trouxe uma grande sensação de paz e memórias de outras tardes semelhantes,em outros lugares dos Andes, nas chapadas, no Neblina, no Roraima, na Mantiqueira, onde o cansaço bom de um dia de esforço se soma à ausência de conexões exteriores para que eu me sinta inteiro e presente. Nada do que me arrepender, nada a mudar.
 
Os chuveiros quentes, as barracas suspensas e os colchões subtraíram do Paine algo importante – a oportunidade de me sujar.
 
A paisagem é espetacular e a trilha é dura, mas falta o gosto de deixar o “tijolo de cristal”, para usar a expressão feliz de Júlio Cortázar. Já podemos conhecer as torres e o Glaciar Francês e os Cuernos e o Lago Nordenskjöld mantendo os pés limpinhos, usando o wifi por 10 dólares a hora, sem ter as mãos fuliginosas e cheirando à benzina dos fogareiros MSR, sem congelá-las limpando as panelas na água dos riachos glaciais. Tomar vinho no acampamento deixou de ser um luxo a que você se permitia fazendo o esforço de carregar um quilo a mais na mochila. Custa só 5 dólares a taça. Um travesseiro? Só 9 mil pesos a noite, senhor. 
 
Não sou contra o turismo, nem contra o comércio, nem contra que todas essas coisas sejam ofertadas aos europeus felizes com suas sandálias Birkenstock e seus bonés Columbia para apreciarem a vista dos glaciares com conforto. Apenas constato, entretanto, que temos uma espécie de toque de Midas ao reverso. Como o rei mitológico que transformava tudo em ouro e aos poucos viu o que parecia ser uma benção converter-se em infelicidade, nós modernos acabamos por remover de lugares como o Paine justamente aquilo que os torna mágicos e nos atrai neles: sua distância, sua desconexão e seu
mistério.
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por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

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