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O Paradoxo da (In)Dependência

28.01.2025 - 10:15:32
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Diagrama de uma bicicleta (Fonte: Dias de Solitude)
 
Acho que já disse isso de outra forma por aqui, mas uma das coisas que me angustia no compromisso de ter que escrever toda semana é a obrigação de sempre ter algo a dizer. Não me entenda errado: eu preciso escrever toda semana por motivos de saúde mental. Não há nada mais importante para mim. 
 
Ainda assim, de outro lado, vivemos em um mundo com excesso de informações e de opiniões. É preciso saber o que está acontecendo, seja na guerra política, seja na vida das celebridades. E é necessário ter opinião ou, mais que isso, uma sentença para cada fato, cada gesto, cada fala, de forma a que o mundo permaneça ordenado, entre certo e errado, entre bom e mau, entre nós e eles. É cansativo.
 
Nasci com um defeito que é, ao mesmo tempo, uma benção: eu sempre acho que estou errado. Isso me faz com frequência ficar calado, ou ao menos esperar mais um pouco, pensar outra vez, tentar entender melhor. Com isso, perco o timing mais do que falo na hora certa, mas raramente dou bom dia a cavalo. 
 
Há várias coisas que têm me interessado e tomado meus pensamentos, mas sinto que merecem mais atenção e reflexão. Não quero falar delas já. Mas escrever então sobre o quê? É possível compor um texto e ao mesmo tempo ficar em silêncio? Talvez a poesia seja mais ou menos isso?
 
É possível sim andar de lado. Abandonar, por ora, a corrente principal das inquietações e explorar suas margens ou seus tributários. Quem sabe formar alguma opinião, inspirado por Manoel de Barros, sobre coisas desimportantes. Deixar de lado o último discurso do Trump, os deportados que chegaram, o Deepseek e a queda da Nvidia, a delação do Mauro Cid, a fala do Lula de ontem, a Débora Bloch como Odete Roitman, o Oscar que vai salvar nosso país.
 
Ontem, por exemplo, notei que o pneu dianteiro da minha bicicleta está furado. É realmente algo desimportante, inclusive porque há meses não ando de bicicleta. Mas basta começar a pensar sobre o pneu para ver como a vida e o mundo inteiro vêm.
 
Sobre esse pneu, eu poderia consertá-lo. Tenho o remendo e a cola. Mas dá trabalho desmontar e montar e depois tornar a inflá-lo com a bomba manual. Toma tempo, dói o braço e, vez ou outra, o remendo não fica bom e é preciso refazê-lo.
 
É mais fácil, em tese, levá-lo ao borracheiro. Basta tirá-lo, botar no carro, dirigir, chegar à borracharia e pedir ao moço: “O senhor pode remendar esse pneu?”. Tenho que pagar 10 reais. Se fizer a conta, o tempo gasto acaba sendo mais ou menos o mesmo, mas a qualidade do conserto é mais garantida. Além disso, no braço, a gente nunca infla o pneu do tanto que é ideal.
 
O pneu e a roda e todo o funcionamento da bicicleta contêm inúmeros mistérios e me fazem pensar sobre minha infinita dependência e falta de autonomia. 
 
Afinal, eu não sei extrair látex, processá-lo e fazer uma câmara de ar e um pneu. É bom que o seringueiro e a Pirelli o façam porque, se precisasse, eu gastaria a vida inteira e não conseguiria fazer um único pneu. Seria necessário aprender a identificar uma seringueira, ir à floresta, evitando as onças, precisaria descobrir como sangrar a árvore da forma correta. Teria antes que ver a questão da ferramenta usada. Se eu precisasse fabricar esse instrumento, aí já seriam duas vidas. 
 
Pergunto ao Deepseek aqui qual a ferramenta usada para extrair látex, e ele me ensina que é conhecida como “faca de seringa", basicamente uma ferramenta de lâmina curva para favorecer o corte do tronco no ângulo correto. Nesse caso, portanto, eu precisaria aprender a minerar ferro e também o ofício de ferreiro ou, pior ainda, planejar uma usina siderúrgica e depois uma metalurgia, além de descobrir que madeira dá bom cabo e aprender a cortá-la. Se eu não tivesse o Deepseek ou o ChatGPT pra perguntar essas coisas, o tempo então seria incalculável.
 
Inventados a siderurgia e a metalurgia é fabricada a faca, identificada a seringueira, e depois de sobreviver às onças, à malária e à febre amarela, eu extrairia o látex. Precisaria então aprender como fazer ele virar borracha de fato e como se molda um pneu, o que envolve também aço, para a malha, e plástico, para o bico. Mais máquinas, eletricidade, componentes químicos e agora petróleo. Mais minerais e mais engenharia. E eu não entendo nada disso. Me formei em Geografia, que  só serve pra gente desenhar uns mapas bonitos.
 
Enfim, se eu ficasse sozinho no mundo, parece que teria sérios problemas. Não saberia nem plantar arroz e nunca conseguiria matar uma vaca pra fazer bife. 
 
Por isso, meu pai sempre chamava atenção para o fato de que o índio sabe fazer tudo o que precisa para viver (Krenak falou que posso falar “índio”, que não precisa falar “indígena", mas que também pode falar indígena se quiser). O índio sabe pescar, construir casa, plantar – ou pelo menos sabia. Por isso, interessante, o índio tem tempo pra se preocupar com coisas desimportantes, como o vento, o inseto, a lua, o buriti, a lagoa. 
 
E isso nos coloca um paradoxo: quanto mais a gente pode contar com toda uma imensa e complexa rede sociotécnica para nos oferecer facilidades e conforto para a vida, menos tempo a gente tem. Mas por quê? A conta não fecha. 
 
O índio não depende de ninguém e tem tempo. O branco que depende do seringueiro, da Pirelli, da Usiminas e da Petrobras para remendar um mísero pneu de bicicleta, e que pode delegar essa tarefa ao borracheiro, não tem tempo pra nada e vive ansioso e assoberbado, e aí ainda passa a depender do terapeuta e da farmacêutica que fabrica seu ansiolítico. Estranho.
 
Deve ser por isso que o índio enxerga tudo sempre ao contrário da gente e não entende direito por que a gente asfalta a rua pra andar rápido e depois põe quebra mola pra andar devagar.
 
Enfim, questões desimportantes, como se vê. E acabei falando demais.
 
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por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

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