O mundo hoje é treta. Treta no trânsito, treta no elevador,
treta no trabalho, treta dentro de casa, treta na balada. O nível de tensão
está adquirindo patamares mais altos que a inflação do Brasil sem miséria de
Dilma. O ambiente masculino tinha um último oásis para fugir da treta: a boa e
velha pelada semanal entre amigos. Já era.
Aquele joguinho de bola leve, descontraído e sem compromisso
é coisa do passado. Encontrar os brothers para um futebolzinho que era somente
a desculpa para a cervejada da resenha não existe mais. O mundo revista Exame
chegou às peladas. Burocratizaram nosso entretenimento preferido. Até para
essas partidas informais a treta agora é pesada. Claro. Botaram tanto lixo,
botaram tanta fumaça que o que era somente um time com camisa e outro sem,
agora é com uniformes completos, meião, caneleira e chuteira groselha. O que
era dez minutos ou dois gols, o popular dez ou dois, agora é cronometrado e tem
juiz vestido a caráter. Está tudo errado.
A formalização da pelada fez com que as pessoas passassem a
levar muito a sério aquilo que é só uma diversão. O leitor Brunno Praxedes me
alertou disso. Tive que concordar. A treta na pelada adquiriu níveis tão
insuportáveis que agora ela é mais estressante que o próprio trabalho. Tem
gente que prefere aturar a mulher e a sogra no sofá vendo novela do que bater
uma bola com a galera. Que mundo é esse, que mundo é esse… Todo mundo acha
que está jogando a final da Libertadores quando é só um rachão entre amigos. É
óbvio que isso só pode dar errado.
Entradas desleais, discussões por passes errados, bate-boca
por lateral, fim da espontaneidade do drible desnecessário e sem objetividade. Hélio
dos Anjos demais e Garrincha de menos. Não há confraternização, diversão e o
suor básico para eliminar o estresse do dia a dia. Sobra semblante fechado,
cara de mau e 3-5-2.
Estou aposentado das peladas. Desde que arrebentei sozinho os
ligamentos do meu joelho direito em um futebolzinho inocente com os primos, pendurei
as chuteiras. As peladas perderam um pereba, mas bonachão. Toda vez que alguém
me convidava para jogar bola, na lata respondia: “É na ‘verda’ ou na ‘brinca’?”.
Se fosse na ‘verda’, dispensava o convite sem pestanejar. Já tenho um talento
ímpar para encontrar problemas sem procurar, imagine você se vou atrás de sarna
para me coçar. De bobo só tenho o olhar, andar e rebolado.
Com os coxinhas ganhando o mundo, com o Coldplay sendo rock,
com a elitização dos estádios, o refúgio da diversão tosca era a pelada. Uma
espécie de Coreia do Norte, isolada dos que usam gelzinho no cabelo e que estão
dando as cartas com seus blazers indicados por consultoras de moda. Isso não existe
mais. Para nós toscos, só sobrou a verdade antiga. Vamos colocar uns tijolos para
servir de trave e armar um golzinho de rua nesse final de semana?