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A Caneca Mágica

15.04.2025 - 07:56:51
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Eu tenho sobre a minha mesa uma caneca de porcelana. É uma caneca branca com desenhos e escritos em azul, como muitas peças de artesanato nesse tipo de material. Eu a uso como porta-lápis, mas nem sempre foi assim.
 
É uma caneca bem antiga, que deve ter minha idade ou mais. Lembro-me dela desde a infância. É um brinde do “Hotel Fazenda Garlipp”, em Mury, distrito de Nova Friburgo, estado do Rio de Janeiro. Sob o nome do estabelecimento, lê-se o telefone: 5030. 
 
O Google me mostra que o hotel ainda existe, provavelmente no mesmo lugar, já que seu nome faz referência à própria Rua Hans Garlipp, no mesmo distrito. As fotos dos chalés em estilo alpino em meio à neblina da Serra do Mar e uma piscina com trampolim remetem a um hotel que talvez tenha sido chique nos anos 1960 e 1970, mas que agora parece um pouco decadente, mas não sem charme.
 
O ChatGPT, por sua vez, me informa que “os números de 4 dígitos deixaram de ser usados na capital do Rio provavelmente por volta dos anos 1950, à medida que o sistema telefônico foi se modernizando. Em cidades pequenas ou áreas remotas do estado, talvez tenham resistido até os anos 1960 ou início dos 70”.
 
Eu acredito que a caneca seja do início dos anos 1970, quando nasci. Nessa época, meu pai era amigo de Kattrin Kemper, que fora sua psicanalista. Ela e seu marido, Walter, se mudaram para o Brasil em 1948 e foram pioneiros na organização da prática no Brasil. Kattrin tinha um sítio em Nova Friburgo para onde íamos com alguma frequência, segundo relatos dos meus pais. Pelo que me lembro, talvez tenha sido ela quem deu essa caneca para meu pai ou para mim.
 
Acima do nome do hotel, há o desenho de uma grande flor que não sei identificar e uma paisagem simples de casinhas e árvores contra um fundo de serra, provavelmente um retrato do próprio lugar. 
 
O mais interessante, entretanto, está do outro lado. Há um inusitado desenho de um tirolês, com colete, gravata de laço e um paletó aberto por onde se releva a barriga proeminente sobre a calça, que parece uma ceroula. Na cabeça, ele usa o Alpenhut, clássico chapéu do Tirol. Atrás dele, no chão, há três canecas jogadas. Na mão direita, o sujeito carrega displicentemente um cigarro aceso e, na esquerda, uma espumante caneca do que parece ser cerveja. O corpo inclinado em precário equilíbrio e um sorriso de Monalisa no rosto sugerem seu avançado estado etílico. Ao lado do homem, em caligrafia manual, lê-se: “A Räuscherl is ma lieber als a krankheit und a fieber!”
 
O ChatGPT me explica que esse é um dialeto bávaro do alemão, e que a frase pode ser traduzida de forma literal como: “Um Räuscherl me é mais querido do que uma doença e uma febre!”. Explica nosso oráculo que “Räuscherl é uma bebida tradicional na Áustria e Baviera, geralmente uma mistura de aguardente (como Schnaps) com água mineral ou mosto de uva".  Numa tradução mais contextualizada, poderia se dizer: “Um golinho de Räuscherl é melhor do que pegar uma doença!", isto é, “uma frase bem-humorada que expressa um carinho cultural por essa bebida tradicional — quase como se fosse um remédio contra o mal-estar da vida". 
 
Descubro então com mais alguma pesquisa que “a história do Hotel Garlipp teve início em 1916, quando o Comandante da Marinha Alemã, Hans Garlipp, instalou-se em Mury, onde hoje é o hotel. Em 1927, inaugurou o Haus Garlipp. Dez anos depois, o espaço passou a chamar-se Pensão Garlipp e apenas em 1947 recebeu o nome de Hotel Fazenda Garlipp, atribuído por Wolfgang Garlipp, que passou a ser o responsável pelo hotel, contando com a ajuda de Ilse Garlipp, sua esposa, responsável pelo comando da cozinha do hotel durante várias décadas. Atualmente, o Hotel Garlipp está em sua terceira geração, dirigido por Marina Garlipp”.
 
Por que Hans se mudou para o Brasil no meio da Primeira Guerra? Como foi sua história na Marinha? E Kattrin? Por que veio logo após a Segunda Guerra? Seria amiga dos Garlipp?
 
Nossa vida é mesmo bem estranha. Todo e qualquer objeto parece puxar o mundo inteiro e toda a humanidade. Uma simples caneca de louça que resistiu a 50 anos de manipulação e a uma dezena de mudanças de casas traz, de repente, à minha escrivaninha, o Kaiser, o General von Hindenburg, o Arquiduque Francisco Ferdinando, a República de Weimar, o nazismo, Hitler, Freud, a serra fluminense, os Alpes e memórias vagas e antigas de Mata Atlântica, frio, orquídeas e neblina. 
 
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por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

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