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De Gondwana ao seu armário

22.04.2025 - 07:47:18
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No nosso pequeno sítio, há uma árvore que se destaca bem na frente da casa: uma paineira-rosa, também conhecida como barriguda, de nome científico Ceiba speciosa.  Fomos nós que a plantamos. É, portanto, uma árvore jovem, com cerca de 20 anos. Apesar das paineiras-rosas também serem chamadas de “barrigudas”, a nossa não tem barriga, e isso está relacionado ao mesmo fator que a torna uma das mais frondosas em nosso canto: ela cresceu tão viçosa porque a seu lado foi construída a fossa de bananeiras que serve à casa. Alimenta-se portanto de nossos dejetos e sobretudo da água que os transporta e dilui. Em resumo, as paineiras-rosas só ficam grávidas em ambientes de escassez sazonal de água. O inchaço de seus troncos é uma estratégia evolutiva para adaptação aos climas secos do Cerrado e da Caatinga. Apesar de que nossa árvore se encontre no Cerrado, seu microambiente lhe garante um suprimento ininterrupto de água. Dessa forma, ela não precisou criar a barriga que caracteriza muitas de suas irmãs.
 
A Ceiba speciosa faz parte da família Malvaceae, que remete a uma época em que os continentes que hoje compõem o Hemisfério Sul ainda se encontravam unidos no supercontinente de Gondwana e dinossauros palmilhavam seus territórios. Com sua progressiva separação e o surgimento do Oceano Atlântico, que se concluiu há cerca de 70 milhões de anos, no final do período Cretáceo, novas espécies foram surgindo a partir da diversidade de ambientes criados. O que une hoje essa família são as fibras associadas às suas sementes. Por isso, os algodões e os hibiscos, da subfamília Malvoideae, são parentes distantes das barrigudas, separados evolutivamente há milhões de anos.
 
Como nada é tão simples em uma história cuja escala é de dezenas de milhões de anos, ainda que seu ancestral comum tenha surgido antes da separação da África e das Américas, a diversidade dos gêneros da família Malvaceae envolve episódios que mostram que a vida insiste em não se isolar, mesmo diante da imensidão do Atlântico. 
 
Como as comunidades do Benin e da Nigéria formadas por ex-escravizados que retornaram do Brasil à África, espécies africanas do gênero Adansonia se originaram de um mesmo ancestral sulamericano que deu origem aqui ao gênero Ceiba. Pela característica de suas sementes, cujas painas permitem a flutuação, ele cruzou o Atlântico para dar origem, do lado de lá, aos tão conhecidos baobás. Os baobás, gênero que reúne várias espécies, são primos de terceiro grau da paineira-rosa e contam uma história de surgimento em Gondwana, migração para as Américas e retorno à África.
 
No outro ramo da família, a flutuação da paina relata uma jornada diferente, mas igualmente fascinante. A especiação do algodão se deu por caminhos desde sempre separados. Na África e Ásia, surgiram o Gossypium arboreum e o Gossypium herbaceum, enquanto nas Américas, evoluíram espécies como o Gossypium raimondii. 
 
Então, há cerca de 2 milhões de anos, uma espécie africana também cruzou o oceano, hibridizou-se com uma espécie americana e fez surgir espécies tetraploides – com o dobro de cromossomos – de algodão. Desse cruzamento, resultaram o Gossypium hirsutum e o Gossypium barbadense, espécies americanas que respondem hoje por quase todo o cultivo comercial da fibra no mundo. 
 
Se, nesse ramo, a evolução deu origem a espécies americanas e africanas distintas de algodão, que foram domesticadas por povos diferentes mais ou menos ao mesmo tempo de cada lado do oceano,  na subfamília Bombacoideae, de árvores frondosas e de porte, a separação das massas de terra fez surgir, aqui na América do Sul, no ambiente de abundância úmida,  a mais venerada árvore amazônica, a sumaúma (Ceiba pentandra), e, onde havia escassez de água, uma das mais simbólicas espécies do Cerrado e da Caatinga: a paineira-rosa que é nossa companheira no sítio.
 
De novo, que mundo fascinante e estranho habitamos. Se, outro dia, da caneca na minha mesa, fomos parar no início do século XX, no assassinato de Francisco Ferdinando que deu início à Primeira Guerra Mundial, hoje, da paineira e de nossa fossa, chegamos ao Mesozoico, observamos os dinossauros, vimos os continentes se separarem e acompanhamos uma pequena paina atravessar o Atlântico para marcar a história das savanas do lado de lá. Ao mesmo tempo, outra delas fez o percurso inverso para permitir que hoje você se vestisse com o conforto dessa camisa que pegou mais cedo em seu armário e agora cobre seu tronco.
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por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

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