Goiânia – Há alguns anos, quando me bateu a vontade de morar em casa, eu não tinha a menor dúvida: queria ir para o Setor Jaó. Toda vez que visitava um amigo no bairro, me apaixonava mais pelas características particulares que o marcam. Arborização sedutora, reduto de pessoas inteligentes/interessantes, limitações para a verticalização, várias casas de construção criativa e longe do convencional, relativa segurança quando comparado a outros bairros de mesmo perfil socioeconômico. Comecei a olhar imóveis ali e cada um me encantava mais que o outro.
No meio desse processo, o Jaó foi mudando. Os preços começaram a subir acima da média do inflacionado mercado imobiliário goianiense. Esse foi o primeiro sinal da mudança. Junto disso, as virtudes do bairro também iam se perdendo. Montes de geminados apareceram em todo setor, tirando aquele astral massa que as casas tinham. E o fantasma da violência baixou pesado no Jaó, matando a tranquilidade das famílias. Desisti de morar no bairro e fui procurar casa em outros lugares.
No feriado de ontem, fui ao Setor Jaó com um amigo. Demos uma roletada geral pelo bairro, compramos alguns itens no Mercadinho, andamos um pouco pelo Parque Beija-Flor. E a tristeza me arrebatou: aquele Jaó que eu gostava realmente acabou. Um movimento que não era usual, mais e mais geminados em cada esquina, cerca elétrica e placas de equipes particulares de segurança em quase todas as casas. Os novos tempos chegaram ao setor. A aura se foi. Aquele ar hippie-interiorano é coisa do passado.
Fico pensando quando for entregue a obra do Tribunal de Contas do Estado. O que está ruim vai ficar insuportável. O fluxo diário irá aumentar exponencialmente, exterminando os últimos resquícios de tranquilidade do bairro que tinha o astral mais certo de Goiânia. Quem viveu, viveu. Quem não viveu, pode tratar de pegar outro rumo. Pode esperar que logo instalarão algum shopping ou hipermercado por ali. Isso se não conseguirem liberação para construir torres de 30 ou 40 andares por ali.
Desde que tenho memória, o Setor Sul já era aquela mistura de caos e ilhas de sossego. Uma avenida congestionada fazendo margem para uma pracinha toda charmosa. Imagino que o Setor Jaó esteja no mesmo caminho. A cidade não para, já nos alertava Chico Science. O crescimento mirou para o lado do Jaó e, quando o progresso aponta para seu rumo, o mais sensato é dar licença e caçar outro canto. É impossível vencer a força das máquinas.
O Setor Jaó tal qual conhecíamos agora só viverá em nossa lembrança.