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Andressa Toledo e a homenagem musical a Goiânia

GISMAIR MARTINS TEIXEIRA

03.12.2025 - 17:13:56
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Várias cidades mundo afora já foram homenageadas em letras de canções feitas por nativos e também por moradores célebres procedentes de outras localidades. “New York, New York”, eternizada na voz majestosa de Frank Sinatra; a cidade do Rio de Janeiro, cantada em “Cidade Maravilhosa”, na composição carnavalesca de André Filho; São Paulo, eternizada na composição e voz de um célebre imigrante, Caetano Veloso, com “Sampa”, são exemplos dessa assertiva.
Roberto Carlos, por sua vez, prestou homenagem à sua cidade natal, Cachoeiro do Itapemirim, na interpretação de “Meu Pequeno Cachoeiro”, composta por Raul Sampaio para a performance do mais célebre filho da cidadezinha do Espírito Santo. Neste contexto, os motivos musicais das canções que cantam os lugares podem variar.
Goiânia, por exemplo, conta agora com dois motivos distintos de homenagem musical em que a capital goiana funciona como objeto direto de composições, não aparecendo apenas como cenário de amores sofridos, como é o caso de “Rumo a Goiânia”, de Adir Paiva Neto com a interpretação marcante dos irmãos Leandro e Leonardo, e “De São Paulo a Belém”, composta por Nilma/Pinochio e interpretada pela dupla Rio Negro e Solimões.
Ambos os motivos musicais apresentam uma temporalidade diferente, mas com a mesma espacialidade. O primeiro deles remete ao mês de setembro de 1987, quando a capital goiana foi palco do maior acidente radioativo não militar da história por conta do rompimento de uma cápsula de Césio-137, cujo lacre rompido de forma acidental e imprudente liberou radioatividade no ambiente urbano da cidade, contaminado um número significativo de pessoas.
Naquele período sombrio para Goiânia, o trágico acontecimento trouxe à tona o pior e o melhor da natureza humana dos brasileiros. Não foram poucas as vezes em que carros com placas de Goiânia foram alvos de vandalismo em outras cidades, numa clara manifestação de hostilidade por conta do nefasto acidente.
Por outro lado, diversos compatriotas manifestaram seu apoio ao drama vivenciado pelos goianienses. No campo musical, o já veterano artista multimídia, Moacyr Franco, interpretou à época uma bela canção que tinha o objetivo de combater o preconceito contra a cidade e era intitulada “Eu Amo Goiânia”, cujo afetuoso refrão dizia: “Eu amo Goiânia/Goiânia me ama/Eu amo Goiânia e você”.
O segundo motivo musical a cantar a capital de Goiás, sua beleza, sua gente, ocorreu mais recentemente com a cantora goianiense Andressa Toledo, musicista e musicoterapueta, que lançou a canção “Ah, Minha Goiânia!” para homenagear os 92 anos da cidade, numa performance que pode ser conferida neste link https://www.youtube.com/watch?v=OMu1sQ0-o7g.
Nesta canção, a jovem cantora e compositora enaltece a sua terra natal, cantando-lhe a beleza citadina e apresentando-a numa perspectiva que funciona intensamente em um fluxo migratório de pessoas que tanto partem em busca de outras regiões para vivenciar seus sonhos como outras que chegam e aqui aportam trazendo na bagagem muitas esperanças de realizações para uma vida melhor. Composta pela própria intérprete, diz a canção: “Vi gente embarcando pra longe daqui/Dizendo que o sonho era longe de ti/E vi muitos chegando, querendo ficar/E sentiram no peito:/’Quando a gente se sente acolhido de verdade,/é como se o coração dissesse: pode ficar…’/Aqui é seu lugar”.
Ainda no início da peça musical, Andressa Toledo abre a interlocução com a cidade, rememorando sua infância pelas ruas e espaços urbanos goianienses, evocando de forma sutil uma época idílica em que problemas de segurança não eram tão prementes quanto nos dias atuais, o que de resto espelha uma realidade não só de Goiânia, mas também de todo grande centro urbano do Brasil. Canta a autora: “Ah, minha Goiânia, como é bom morar em você/Ah, minha Goiânia, nas suas ruas me vi crescer/Quando era criança, andava de pé no chão/Brincava nas calçadas com os amigos de montão/O cheiro dessa terra, o calor desse chão/Moldaram meus versos, meu tom, minha canção”.
A letra de “Ah, Minha Goiânia!” apresenta uma estrutura inicial que remete a uma prosopeia a personificar a cidade, atribuindo-lhe características humanas de acolhimento e pertencimento: “Ah, minha Goiânia, como é bom morar em você”. O acolhimento é reforçado na sequência, quando expressa a acolhida a quem chega: “Vem gente de outras bandas com o brilho no olhar/Cada um com o seu jeito, seu modo de falar/E foi nesse canto que a vida os chamou/Goiânia escutou, acolheu e abraçou/É assim o nosso povo, posso garantir/Quem chega com verdade tem onde florir/Goiânia é calor que acende o coração/E o amor por essa terra vira inspiração”.
A canção “Ah, Minha Goiânia!” se desenvolve como uma bela homenagem musical à capital de Goiás, quase centenária, que tem se destacado no cenário nacional por conta, sobretudo, do valor cultural de sua população, cuja sensibilidade musicista de Andressa Toledo captou com a sutileza do artista que percebe nuances nem sempre percebidas pela grande maioria daqueles que não têm a sensibilidade artística à flor da pele, como é o caso da jovem cantora goianiense, que já possui uma sólida carreira musical na cena artística de Goiás e que agora utiliza de seu talento para homenagear sua terra natal.
Que o exemplo artístico de Andressa Toledo contagie outras linguagens artísticas, promovendo o surgimento de obras que expressem as belezas de uma cidade que se afigura uma verdadeira joia encravada no coração do Brasil. Naturalmente, a cidade tem lá os seus problemas, como toda grande metrópole, mas tem também muito ainda da graça e do charme de um recanto tranquilo.
GISMAIR MARTINS TEIXEIRA é Doutor em Letras e Linguística com Pós-Doutorado em Ciências da Religião.
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por Gismair Martins Teixeira

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