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O mito do protesto pacífico

30.05.2013 - 12:59:04
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Acompanhando a repercussão do quebra-pau da polícia para cima dos estudantes que rolou nessa semana em Goiânia, estou embasbacado com a quantidade de senso comum que ando ouvindo. Em todo canto escuto que “a manifestação é válida, mas a baderna não”; “o protesto é legítimo, mas vandalismo não”; “os estudantes estão certos, mas perderam a razão”. Na boa, em que mundo essa gente vive?

Na verdade, não se trata de mundo, se trata do Brasil. Somos mestres na arte da conciliação do inconciliável. Está em nossa tradição, está tatuado em nosso DNA. Queremos sempre acender uma vela para Deus e outra para o diabo. Na frente das câmeras, somos moralistas e defensores da família. Quando as luzes apagam, fazemos aquilo que é impublicável. Calcado nesse comportamento dúbio, criamos expressões que beiram o ridículo. Os exemplos são fartos. Crítica construtiva. Manifestação ordeira. Protesto pacífico.

Fazer uma crítica nunca pode ser construtivo. Se for para construir, é elogio, nunca crítica. Crítica é para colocar em crise, fazer você perder o chão, nocautear e, a partir daí, quem sabe, colocar o indivíduo em outro caminho.

Manifestação ordeira é um contra senso tão grande quanto torcedor do Vila Nova esmeraldino. Não existe. Se é manifestação, existe justamente para questionar a ordem, colocá-la em xeque, subvertê-la. Não é para respeitar o status quo, é para desafiá-lo.

Protesto pacífico está nessa linhagem de paradoxos. Se acontece, das duas uma: ou não é protesto, ou não vai resolver nada. Para um protesto pacífico, a resolução das autoridades para o pleito popular será sempre a criação de uma comissão proteladora que não resolverá patavina. Desculpe dizer a verdade inconveniente em um belo feriado.

Observe a história. As grandes transformações sempre foram depois de muita porrada para tudo quanto é lado. Patrimônio destruído e vidas perdidas são os lamentáveis efeitos colaterais das transformações sociais. A coroa francesa queria manifestações ordeiras. Se assim fosse, seria reforma e não revolução. Faltou o sangue azul combinar isso com os miseráveis. A família czar russa queria protestos pacíficos. Também faltou combinar com os bolcheviques. Até mesmo o exemplo indiano capitaneado por Gandhi teve seus momentos de enfrentamento nada ordeiros ou pacíficos.

Não sei se estou sendo claro, sei que esse é um terreno pantanoso e facilmente deturpável. Seja por falta cognitiva, seja por falta de caráter. Não estou defendendo a quebradeira, estou dizendo que sem ela as transformações não costumam chegar. O transporte coletivo de Goiânia precisa de uma revolução. Não sei de alguma revolução na base do flower power. Existe uma? Por favor, me conte aí nos comentários.

Era previsível que a coisa chegaria ao ponto que chegou na Praça da Bíblia. As manifestações vinham acontecendo, a vontade popular foi solenemente ignorada e o reajuste veio. O clima estava ficando acirrado. Não houve diálogo com o movimento, não havia perspectiva de melhoria. O aumento era só para o bolso das empresas. Não havia contrapartida para o usuário. O que você queria? Sorrisos e narizes de palhaço? Uma outra Marcha do Todinho? Elementar que isso não aconteceria.

E não precisa ser guru para prever que outros conflitos acontecerão. Quem sabe até mais agressivos. O movimento dos estudantes se mostra determinado, parece que não está disposto a retroceder se não tivermos melhorias. O pleito está errado? Não. A quebradeira é culpa dos estudantes? Para mim, não. É de quem deixou nossos ônibus chegarem nesse estado calamitoso. E para você? A culpa dos paus que certamente ainda voarão é de quem?

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por Pablo Kossa

*Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG

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