Deitado no berço esplêndido de um suposto ingresso no clube das nações ricas, o Brasil convive mansamente com sinais do atraso. Na área de informática, a sombra da nefasta reserva de mercado, que por muitos anos condenou o brasileiro a conviver com trambolhos tecnológicos, teima em pairar sobre o consumidor.
Como diz um antigo ditado com tom de piada: saímos da pobreza (pelo menos é o que diz a propaganda governamental), mas a pobreza não sai de nós.
Reportagem publicada pelo
Jornal O Globo só comprova essa tese. O brasileiro não só convive com computadores ultrapassados, como paga muito mais caro por isso.
Em um levantamento que incluiu 30 modelos de 6 gigantes da área, a reportagem encontrou equipamentos até 166% mais caros e defasados em comparação com aqueles que são vendidos nos Estados Unidos, por exemplo.
As desculpas são muitas e velhas conhecidas: alta carga tributária (até 33% do preço final), escala pequena (pois, mesmo com toda a festa em torno da tal nova classe média, a verdade é que a renda da massa populacional ainda é bastante inferior à de países mais desenvolvidos), e margem de lucro por unidade acima da média global (cerca de 10%).
O fenômeno se repete em toda a cadeia tecnológica. O internauta verde-e-amarelo paga uma das tarifas de banda larga mais altas do mundo, segundo estudos do Comitê Gestor da Internet. E o serviço, todos sabemos como é: lento e instável.
Além disso, as operadoras contam com a leniência dos órgãos responsáveis pela fiscalização e punição, como a Anatel, cujas multas fazem rir os executivos das teles.
Existe, ainda, a questão da mão de obra dos prestadores de serviço. Há, por exemplo, agências daqui mesmo de Goiânia que preferem encomendar alguns serviços na Índia. Argumentam que o indiano entrega um material melhor, com mais agilidade e com menor custo.
Na virada dos anos 1980 para os anos 1990, o então presidente Fernando Collor de Melo mexeu com autoestima da indústria automobilística ao chamar os carros brasileiros de carroças. Noves fora todos os comprovados defeitos do único presidente brasileiro alvo de impeachment, nesse ponto ele estava absolutamente correto.
Muita coisa mudou de lá para cá. Mas a nossa vocação para Jeca Tatu, o personagem lobatiano condenado à indigência e ao atraso, parece ainda exercer uma influência forte demais para ser deixado definitivamente no passado. Assim, seguimos felizes montados em carroças tecnológicas, crentes que estamos pilotando a Ferrari mais nova.