A repercussão da gigante manifestação de ontem em Goiânia está interessante. Muita gente falando que foi linda, muita gente postando que foi um momento único, muita gente que ficou arrepiada e… muita gente frustrada e em depressão.
Os relatos me fizeram lembrar quando éramos adolescentes. Os posts aparentam as conversas com amigos que tivemos após primeira experiência sexual. A expectativa era enorme, a promessa de prazer inesquecível angustiava, a ansiedade transbordava pelos poros e, após o vamos ver, a gente percebeu que a realidade era bem menor do que a propaganda prometia. O sentimento de frustração normalmente tomou conta. “Então sexo é só isso?” – um pensamento comum em várias pessoas depois da primeira vez.
Só após algumas tentativas é que temos noção do poder real do sexo. Dificilmente a plenitude das sensações vem na primeira vez. Mesma coisa com as manifestações. Como a grande maioria estava desvirginando ontem em protestos de rua, a expectativa era de que o Brasil já amanhecesse diferente hoje. Inexperiência e ingenuidade. Aquele foi só o primeiro passo de uma São Silvestre de vários quilômetros a serem percorridos para as transformações profundas que necessitamos. Não era o fim, como imaginavam. Era o começo.
Isso explica a sensação de ressaca que vimos nas redes sociais hoje. Uns pararão de frequentar protestos, pois tal qual a primeira bebedeira, a frustração do dia seguinte pode traumatizar. Outros aprenderão a lidar e continuarão nessa relação questionadora com o que os incomoda – e são esses que de fato mudarão o Brasil.
O desvirginar de uma geração nas ruas contra “tudo isso que está aí” pode ter sido positivo. Mas se a coisa não seguir adiante, elegendo pautas específicas para os próximos protestos, exercendo a cobrança diária perante o poder, será insuficiente para reverter tudo aquilo que foi dito nos milhares de cartazes. Por favor, veja bem o que eu disse: insuficiente, não insignificante. Não sou tão apocalíptico quanto aparento.
Os próximos passos dos jovens que ontem pintaram as ruas goianienses de branco é que decidirão efetivamente o futuro do Brasil. Se todos voltarem para as frases de autoajuda no Facebook, o ato de ontem mudará muito pouco, tendendo ao quase nada. Se aquele tiver sido o pontapé inicial de uma série de manifestações orquestradas, a transformação por todos nós desejada pode estar a caminho.
O que acho que vai acontecer? Não sei. Futurologia nunca foi minha praia. Mas os dados estão na mesa. Qual é sua aposta?