Não raro, ouço queixas sobre Goiânia de amigos de outros estados e até de goianos da Capital e do interior. Algumas até acho válidas. No entanto, defendo – não desde criancinha, pois passei a apreciar a cidade há pouco tempo – com unhas, dentes, informações e argumentos o município que eu escolhi para viver. Aliás, que me escolheu, pois me recebeu em 2001 de braços abertos e com oportunidades progressivas.
O palco onde idealizei este texto é um desbunde. Tive a ideia de escrevê-lo enquanto corria no Lago das Rosas, atividade que cumpro religiosamente ao menos três vezes por semana sempre no mesmo lugar. Era manhã de domingo. Enquanto eu percorria meus dez quilômetros, outros atletas de fim de semana faziam o mesmo, famílias realizavam piqueniques, casais namoravam, avós passeavam com seus cachorrinhos e assim por diante. Todas as tribos na mais perfeita harmonia pintam esse quadro dessa cidade pequena, nova, plural e acolhedora.
O cenário não é exclusividade do hospedeiro do Zoológico de Goiânia, que arrasta uma mácula, queira Deus, somente até outubro, para quando o prefeito Paulo Garcia promete reinaugurar o espaço. Outros parques e bosques da capital têm a mesma configuração. Eles não são restritos, vale lembrar, às áreas nobres da cidade.
Bairros bem vistos pela especulação imobiliária como Oeste e Jardim Goiás desfrutam desses oásis verdes tanto quanto setores com metros quadrados menos valorizados, como Goiânia Viva e Goiânia 2, por exemplo. As estruturas são as mesmas. Hoje moro no Bueno e corro no Lago das Rosas, mas vivi no São Judas Tadeu e fazia o mesmo no Goiânia 2. O objetivo não é me ater, entretanto, às meninas dos olhos da Agência Municipal do Meio Ambiente.
Minha vizinha me presenteou com uma bacia de pães de queijo na noite de sábado. Não foi a primeira vez que a odontóloga quis me agradar com sua habilidade culinária. O proprietário do meu apartamento, com idade para ser meu pai, me convidou para o noivado dele com uma simpática morena com quem troquei poucas palavras nas duas vezes que vi. Fiz questão de ir.
Estar sem carro não é impedimento para sair. Meus amigos não admitem que eu tome táxi. Ser apanhado e deixado na porta do prédio é uma constante. Não temos referência em alta gastronomia, mas não é difícil comer nem beber bem por aqui e a preço justo e com o chef da cozinha bebericando na nossa mesa.
Até agora, as linhas que tracei podem soar, a quem tem outros tipos de ambientes, vizinhanças, costumes e círculos de amizades diferentes, como algo bem tacanho, como costumam classificar Goiás e Goiânia. No entanto, tudo isso faz parte do jeito goiano de ser. E do jeito goianiense de viver. Porque, apesar de ser capital e de ter um milhão de habitantes, Goiânia vai ser para sempre o coração do coração do Brasil.
Não temos praias banhadas pelo Atlântico, aeroporto internacional – é assim que a Infraero enquadra o Santa Genoveva – digno, voos diretos para todas as demais capitais brasileiras, vários políticos de projeção nacional, grande quantidade de músicos com milhões de cópias vendidas, artistas plásticos frequentemente em exposição na Bienal de São Paulo nem escritores entre os mais lidos. Temos, contudo, o ceu mais puro do inverno, a chuva mais gostosa do verão, o amarelo mais luminoso da primavera – leia-se ipê – e o tapete de flores mais harmônico do outono.
Além de todos os nossos simples fatores naturais, que têm cheiro, cor, gosto, textura e som os mais límpidos possíveis, com os quais não há nada entre e o Leme e o Pontal que compita, há uma gente tão generosa e de coração tão afável que ouve ingratas reclamações estrangeiras, mesmo quando o autor é recebido com um abraço, e retribui com outro abraço. E o abraço do goianiense não é quente nem frio. É quente, se for inverno, e frio, se for verão. O abraço do goianiense sempre tem a temperatura ideal. Acredito piamente que Deus é brasileiro e que Ele foi registrado em algum cartório de Goiânia.
João Camargo Neto é jornalista