“Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino prá lá”
Chico Buarque
Aos 50 anos, meu pai nunca tinha ido ao médico. Nem para nascer, já que nasceu de parteira debaixo de uma árvore, como orgulhava-se de contar. No meio do ano passado, adentrou um consultório pela primeira vez. Diagnosticou um câncer no nariz e precisaria passar por uma cirurgia para amputar o órgão. Morreu antes de completar 51. Tudo nessa mesma velocidade textual.
Meu pai era daqueles que até admitia ter plano funerário, mas de saúde jamais. Ele morreu aos 50 anos onde eu nasci aos 25: no Araújo Jorge. Na internação, passei a enxergar aquele hospital do qual eu temia até mesmo o nome e a rua, como maternidade. Nasci ali com um quarto de século, faculdade concluída e emprego arranjado.
Eu sou um caso de sucesso, como muitos por aí, de quem nunca teve câncer, mas viveu de câncer. E sobreviveu. Só não aprende a viver com a morte quem já morreu. Trata-se de uma doença genética, contudo não quer dizer que seja hereditária só porque mexe com seu DNA. Pelo sim, pelo não, desde então, vou mais ao oncologista fazer revisão preventiva que à alergista cuidar da rinite alérgica, presente nas quatro estações do ano.
Câncer é a doença do impacto. Não tem nada de muito exato. É aquela que chega e diz: "Olá. Tudo bem? Meu nome é Câncer. Não precisa responder prazer. Você pode morrer, como não pode." Não faz diferença se o sobrenome do Tumor é Benigno ou Maligno. Sem medo da palavra, o que faz diferença é alimentar a esperança, porque a fé independe se a morte já foi sentenciada ou não. E ter fé, acreditar naquilo ou naquele que não se vê, não é ser bobo, é ter apreço pela vida.
A fé, no entanto, não é cartesiana nem resolve teoremas. Meu pai sabia que ia morrer. Ele nunca fez nada de errado na vida, nem em nome da felicidade extrema que sempre seguiu. Foi um marido fiel, um pai exemplar, um cidadão consciente, um vizinho caridoso. E teve câncer. Portanto, doença não é maldição nem punição.
Quem tem câncer não tem desejo, mas tem sonho. Sonha mais, exercita mais a esperança em velocidade acelerada de algo que pode acontecer. Como não pode. Meu pai passou a sonhar ainda mais com o casamento da minha irmã, com o nascimento dos netos, com as bodas de ouro com a minha mãe, distantes 23 anos dali. Sonhou. Viveu.
Não há eufemismo para tumor. Não há nenhuma palavra que suavize metástase. Quimio, rádio e outros prefixos inovadores para terapia oncológica não soam como visita ao psicólogo ou massagem com pedras quentes.
Há câncer curável sim. Cabe ao médico usar de toda a sua sinceridade, de preferência amparada por um psicólogo fundamentado na gestalt, para acompanhar a família e o paciente. Adulto tem todo o direito de saber sobre suas possibilidades, positivas ou negativas.
Imagine que, depois de um diagnóstico, o cuidador passa a inspirar cuidados. Quem comprou fraldas para você e sua irmã, 25 anos depois precisa que você compre fraldas para ele. Quem te deu banho, depende do seu sabonete e do seu xampu. Quem passou madrugadas acordado ao seu lado por causa de uma gripe exige a sua vigília em torno de algo que não se cura com chá.
Câncer acomete leigo e médico, quem coleciona BMW e que nunca teve Carteira Nacional de Habilitação, quem mora em Itapuranga e quem passa o natal em Nova York. Você tem medo da morte? Eu não. Tenho da dor. Quem teme a morte é porque tem pendências na vida. Familiar e amigo de quem tem câncer não têm direito a dor, pois ela brutalmente já afeta o escolhido, que tem de ser acolhido e amparado.
Quem gosta de clichê pode logo pensar que contra fato não há argumento. Entretanto, há esperança e fé. Ok. Os números são contraditórios, mas a vida não é. Ela é maior, soberana e ignora roteiros. Apesar de o Brasil não estar entre um dos países com maior taxa de mortalidade por câncer, ele é a segunda causa de morte em território nacional, correspondendo a cerca de 13% do total dos óbitos, perdendo apenas para doenças como diabetes, infarto, hipertensão, entre outras.
Este texto pode parecer um parecer pessimista. No entanto, não é nem de longe. Foi escrito por uma pessoa plena e intensamente feliz, mesmo órfão de pai cuja vida foi ceifada por um carcinoma e filho de mãe curada de outro tipo de câncer. Portanto, tenho propriedade para afirmar que quem lê câncer e entende morte não sabe ler. Quem ouve câncer e entende morte não sabe viver.