Logo

Eu nasci de câncer

08.07.2011 - 17:19:41
WhatsAppFacebookLinkedInX

“Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino prá lá”
Chico Buarque
 
Aos 50 anos, meu pai nunca tinha ido ao médico. Nem para nascer, já que nasceu de parteira debaixo de uma árvore, como orgulhava-se de contar. No meio do ano passado, adentrou um consultório pela primeira vez. Diagnosticou um câncer no nariz e precisaria passar por uma cirurgia para amputar o órgão. Morreu antes de completar 51. Tudo nessa mesma velocidade textual.

Meu pai era daqueles que até admitia ter plano funerário, mas de saúde jamais. Ele morreu aos 50 anos onde eu nasci aos 25: no Araújo Jorge. Na internação, passei a enxergar aquele hospital do qual eu temia até mesmo o nome e a rua, como maternidade. Nasci ali com um quarto de século, faculdade concluída e emprego arranjado.

Eu sou um caso de sucesso, como muitos por aí, de quem nunca teve câncer, mas viveu de câncer. E sobreviveu. Só não aprende a viver com a morte quem já morreu. Trata-se de uma doença genética, contudo não quer dizer que seja hereditária só porque mexe com seu DNA. Pelo sim, pelo não, desde então, vou mais ao oncologista fazer revisão preventiva que à alergista cuidar da rinite alérgica, presente nas quatro estações do ano.

Câncer é a doença do impacto. Não tem nada de muito exato. É aquela que chega e diz: "Olá. Tudo bem? Meu nome é Câncer. Não precisa responder prazer. Você pode morrer, como não pode." Não faz diferença se o sobrenome do Tumor é Benigno ou Maligno. Sem medo da palavra, o que faz diferença é alimentar a esperança, porque a fé independe se a morte já foi sentenciada ou não. E ter fé, acreditar naquilo ou naquele que não se vê, não é ser bobo, é ter apreço pela vida.

A fé, no entanto, não é cartesiana nem resolve teoremas. Meu pai sabia que ia morrer. Ele nunca fez nada de errado na vida, nem em nome da felicidade extrema que sempre seguiu. Foi um marido fiel, um pai exemplar, um cidadão consciente, um vizinho caridoso. E teve câncer. Portanto, doença não é maldição nem punição.

Quem tem câncer não tem desejo, mas tem sonho. Sonha mais, exercita mais a esperança em velocidade acelerada de algo que pode acontecer. Como não pode. Meu pai passou a sonhar ainda mais com o casamento da minha irmã, com o nascimento dos netos, com as bodas de ouro com a minha mãe, distantes 23 anos dali. Sonhou. Viveu.

Não há eufemismo para tumor. Não há nenhuma palavra que suavize metástase. Quimio, rádio e outros prefixos inovadores para terapia oncológica não soam como visita ao psicólogo ou massagem com pedras quentes.
Há câncer curável sim. Cabe ao médico usar de toda a sua sinceridade, de preferência amparada por um psicólogo fundamentado na gestalt, para acompanhar a família e o paciente. Adulto tem todo o direito de saber sobre suas possibilidades, positivas ou negativas.

Imagine que, depois de um diagnóstico, o cuidador passa a inspirar cuidados. Quem comprou fraldas para você e sua irmã, 25 anos depois precisa que você compre fraldas para ele. Quem te deu banho, depende do seu sabonete e do seu xampu. Quem passou madrugadas acordado ao seu lado por causa de uma gripe exige a sua vigília em torno de algo que não se cura com chá.

Câncer acomete leigo e médico, quem coleciona BMW e que nunca teve Carteira Nacional de Habilitação, quem mora em Itapuranga e quem passa o natal em Nova York. Você tem medo da morte? Eu não. Tenho da dor. Quem teme a morte é porque tem pendências na vida. Familiar e amigo de quem tem câncer não têm direito a dor, pois ela brutalmente já afeta o escolhido, que tem de ser acolhido e amparado.

Quem gosta de clichê pode logo pensar que contra fato não há argumento. Entretanto, há esperança e fé. Ok. Os números são contraditórios, mas a vida não é. Ela é maior, soberana e ignora roteiros. Apesar de o Brasil não estar entre um dos países com maior taxa de mortalidade por câncer, ele é a segunda causa de morte em território nacional, correspondendo a cerca de 13% do total dos óbitos, perdendo apenas para doenças como diabetes, infarto, hipertensão, entre outras.

Este texto pode parecer um parecer pessimista. No entanto, não é nem de longe. Foi escrito por uma pessoa plena e intensamente feliz, mesmo órfão de pai cuja vida foi ceifada por um carcinoma e filho de mãe curada de outro tipo de câncer. Portanto, tenho propriedade para afirmar que quem lê câncer e entende morte não sabe ler. Quem ouve câncer e entende morte não sabe viver.

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por João Camargo Neto

*

Postagens Relacionadas
José Israel
28.02.2026
Canetas emagrecedoras e pancreatite

O debate em torno das chamadas canetas emagrecedoras ganhou um novo e relevante capítulo com a divulgação, por parte da Anvisa, de dados sobre casos suspeitos de pancreatite e óbitos potencialmente relacionados ao uso desses medicamentos no Brasil. Embora os números ainda não permitam conclusões definitivas, eles desempenham um papel crucial ao acender um alerta […]

Mara Pessoni
28.02.2026
É possível solicitar um visto para os EUA apenas para assistir a um jogo do Brasil na Copa do Mundo?

É perfeitamente possível solicitar o visto americano para assistir a apenas um jogo da Copa do Mundo de 2026. Na verdade, grandes eventos esportivos são motivos comuns e legítimos para viagens de turismo. Como você já atua na área de imigração, sabe que o desafio não é a justificativa em si, mas a demonstração de […]

Roberta Muniz Elias
27.02.2026
Infância Sem Atalhos: Proteção Total

Diante da ampla repercussão pública nos últimos dias sobre o julgamento no TJ/MG, a proteção da dignidade sexual de crianças e adolescentes voltou a ocupar o centro do debate. Decisões judiciais que, de forma equivocada, tentaram relativizar a aplicação do art. 217-A do Código Penal – dispositivo que tipifica o estupro de vulnerável – suscitaram […]

Décio Gazzoni e Antônio Buainain
25.02.2026
O papel do engenheiro agrônomo na realidade contemporânea

O Acordo entre o Mercosul e a União Europeia significa um marco histórico nas trocas comerciais no mundo, pela amplitude de países, população e valores financeiros (PIB e trocas comerciais) envolvidos. É um exemplo acabado da realidade comercial contemporânea. Do ponto de vista da União Europeia, as vantagens apontam especialmente para uma abertura de mercado […]

Leonardo Ribeiro
24.02.2026
Quaresma: rumo ao deserto para escutar e viver

Com a graça de Deus iniciamos, unidos com a Igreja, o Tempo da Quaresma. Como todos os anos, neste período de quarenta dias, somos convidados a mergulhar com intensidade e coração aberto neste tempo propício de revisão de vida e conversão pessoal. A própria Liturgia da Quarta-Feira de Cinzas, que marca o início da Quaresma, […]

Ricardo Menegatto
17.02.2026
Prejuízos causados por eventos climáticos: quais são os direitos do consumidor?

Os alertas da Defesa Civil sobre tempestades severas tornaram-se parte da rotina de moradores de São Paulo e de diversas capitais brasileiras. Com eles, cresce também a apreensão quanto à possibilidade de quedas de energia elétrica e aos prejuízos que podem atingir residências, comércios e até a saúde de pessoas que dependem de equipamentos essenciais. […]

Carla Conti
14.02.2026
Educar com consciência planetária é um compromisso com a vida

A universidade é, historicamente, a casa do conhecimento. É nela que se formam profissionais de todas as áreas e onde se outorgam diplomas que autorizam a atuação no mundo. Mas esse gesto formal carrega uma responsabilidade que vai muito além da formação técnico-científica. Em um cenário marcado por crises ambientais, desigualdades sociais persistentes e pelo […]

Anna Carolina Cruz
13.02.2026
O tempo que não temos

Há dias em que a alma pede silêncio. Não o silêncio da ausência de barulho, mas o silêncio da consciência que desperta. Tenho pensado muito na forma como estamos vivendo. Corremos como se houvesse um incêndio permanente, como se cada mensagem ou e-mail não respondido fosse o fim do mundo, como se cada prazo fosse […]