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Dieta das migalhas de amor

15.08.2011 - 13:29:09
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Há dias sinto um gosto amargo na boca, quando olho a rua pela janela de casa. É que ela mostra o cenário onde uma condutora morreu, vítima de uma grave colisão. A justificativa que ouvi para o acidente é que ela estaria dirigindo em alta velocidade porque queria flagrar o namorado com outra. Havia sido alertada do fato por uma amiga, durante a madrugada, e não teria pensado duas vezes antes de pegar o carro e sair aflita, a 130 quilômetros por hora, para ver com os próprios olhos o fato consumado.

A moça do episódio acima morreu imediatamente após o acidente. Mas sua lembrança não me sai da memória, porque fico pensando em quantas mulheres que conheço que também estão morrendo, à míngua e lentamente, pelo mesmo motivo: a desnutrição afetiva. Embora sejam lindas, inteligentes, batalhadoras e íntegras, são famintas de amor e desesperam-se diante da possibilidade de deixar de receber afeto do parceiro. São capazes de qualquer coisa por um telefonema, um olhar de atenção, uma palavra doce, alguns minutos de companhia.

Craques em suas profissões, bonitas, cultas e divertidas, elas se transformam em seus relacionamentos afetivos. Ao perceberem que o companheiro não quer mais vivenciar o amor de forma integral, ficam tão aterrorizadas perante a possibilidade de perder o vínculo, que agem como crianças amedrontadas e topam qualquer parada. Fazem qualquer negócio para manter a (pseudo) relação, ainda que isso signifique receber algumas míseras migalhas de carinho e colocar o amor próprio, a segurança pessoal e a sanidade mental em risco.

Essas mulheres incríveis tornam-se poços de ansiedade e insegurança. Olham o celular a cada cinco minutos para conferir se ele ligou ou mandou uma mensagem. Compram presentes caríssimos e fazem surpresas incríveis para comemorar aniversários de namoro ou casamento, na esperança que o parceiro lhes dê ao menos um sorriso de satisfação. Passam fome, malham horas na academia, usam quilos de creme no corpo e no cabelo e renovam o guarda-roupa, torcendo para que ele não olhe para o lado na balada.

Apesar do esforço hercúleo, ele não liga, não manda mensagem, não se mostra carinhoso nem tampouco deixa de notar outras mulheres. Sentindo-se incapaz e culpada, a companheira intensifica o arsenal de mimos e seduções e dobra a tolerância com a falta de dedicação e cuidado alheio. Quanto mais percebe que o parceiro está se distanciando, mais tenta se fazer presente e mais bolos, mentiras, traições e até mesmo grosserias mostra-se capaz de suportar. 

Famintas de amor e aprovação, essas mulheres submetem-se às situações mais humilhantes, acreditando que, uma hora, o banquete há de chegar. A questão é que ele não virá, porque afeto não se mendiga, não se implora. Quem suplica ao outro uma migalha de amor, mostra que pode viver de restos e não merece nada por inteiro. Quem passa toda a relação implorando um pouco de afeto não estabelece vínculo com um parceiro, mas com um chefe, um dono, um ser superior que dá as cartas e decide quando sua mulher será feliz.

No deserto emocional em que transformam suas vidas afetivas, essas mulheres acabam acreditando em miragens. Acham que, com tempo e paciência, o terreno árido e estéril da relação será transformado num lindo oásis de amor. Delirantes de tanta desnutrição, arrastam-se pelas areias escaldantes do desprezo em busca de uma gota de atenção, porque, num dado momento, o sacrifício chegará ao fim e elas haverão de fartar-se.

O fato é que não existe banquete sem crença de merecimento nem esforço. Ninguém deixa de passar fome por um toque de mágica. Quem quer provar do bom e do melhor precisa primeiro acreditar que é digno da fartura, e depois partir em busca dela, ainda que isso signifique dias, meses ou anos recusando migalhas que não sustentam. O escritor e poeta Fabrício Carpinejar alertou que não podemos deixar que nossas necessidades virem mendicância perante o outro. Disse tudo.

Falar parece fácil, mas esta que aqui escreve também já sofreu de desnutrição afetiva um dia. Também acreditou que as migalhas que recebia poderiam satisfazê-la como um megajantar. De tanta inanição, uma hora precisou decidir se continuaria com a dieta suicida ou se começaria a procurar um banquete digno do seu merecimento. Fez a segunda opção e não se arrependeu. O amor de verdade alimenta o corpo e a alma. É fartura que sustenta, fortalece e alegra. Se seu coração anda fraco e faminto, encare a dura realidade: não é amor.

Fabrícia Hamu é jornalista pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

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por Fabrícia Hamu

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