Qual foi o melhor disco de 2010? Quem foi o artista revelação? Qual o grande hit do último verão? Responder a estas questões já não é algo tão simples quanto parece. Nos últimos 50 anos, a indústria fonográfica – ou mesmo a de entretenimento como um todo – foi moldada pelos sucessos das multidões. Os mais vendidos, os mais tocados… eram eles que ditavam padrões e os rumos da música pelo mundo. Mas esta história já começou a mudar.
Apesar de muita gente ainda ser obcecada pelos hits, já existe uma multidão que não avança numa mesma direção. É por isso que um “meteoro” como Luan Santana é ignorado por muita gente (muita mesmo!). Não é uma mera questão de gosto. É simplesmente porque essas pessoas desconhecem a existência deste artista, assim como outras tantas nunca viram ou ouviram A Banda Mais Bonita da Cidade ou o trio sueco Peter, Bjorn and John, uma das atrações mais esperadas do festival Planeta Terra.
Atualmente, fãs de música se dispersam e se dividem (e subdividem) em diversos nichos específicos. Nos anos 70, 80, um jovem tinha acesso a meia dúzia – talvez menos – de canais de TV e emissoras de rádio. Alguns poucos programas ditavam e impunham o que todos deveriam ouvir e consumir. Hoje, o consumo de mídia mudou e, com ele, o comportamento das pessoas (o inverso também é verdadeiro). Internet, TV por assinatura, rádios digitais, 3G, celulares… a mídia se fragmentou (e a chegada de um jornal como A Redação apenas comprova isto) e o resultado de toda esta conectividade é um acesso ilimitado e sem restrições a culturas e conteúdos de todas as espécies, desde os grandes hits, os “Discos de Plantina”, até os mais remotos e obscuros movimentos dos subterrâneos.
Os jovens da atualidade cada vez menos ligam suas TVs – e quando fazem, se dispersam em inúmeros canais – e cada vez mais passam horas ligados à internet através de seus desktops, notebooks, tablets e smartphones. O poder de um programa como o do Chacrinha já não é o mesmo desfrutado por um Faustão. O que o Mariozinho Rocha, lendário diretor musical da Globo, gosta já não é o mesmo que a maioria da população ouve.
A era do TOP 10 está chegando ao fim. Os mais vendidos, os mais tocados já não exercem tanto fascínio assim. Mas isso não significa que a música deixou de ser consumida. Pelo contrário, este amplo acesso a canais de divulgação facilitou e ampliou o consumo. Só que ele é feito em maior quantidade de menores escalas. Dificilmente um artista hoje vende milhões de cópias de seu último disco. Mas existe uma infinidade de bandas vendendo algumas centenas ou milhares de seus exemplares. Isto, sem contar com as milhões de faixas compartilhadas gratuitamente ou simplesmente acessadas e digeridas ali mesmo na internet, via streaming, Youtube ou outra tecnologia similar.
Este novo fenômeno motivou o jornalista Chris Anderson, editor-chefe da revista Wired, a fazer uma pesquisa que resultou no livro The Long Tail (A Cauda Longa). Esta longa cauda é formada, justamente, por estes inúmeros artistas que vendem pouco, mas que não deixam de ser “descobertos” pelos fãs de música. Os obscuros, os ídolos do mercado independente, os hypes do Youtube.
Ao ser convidado a voltar a escrever de música para um jornal (e um jornal 100% digital!), entendi que era este o caminho que deveria percorrer. Portanto, se você quiser saber sobre o novo trabalho da Ivete, do Jota Quest, do Detonautas, do Restart, do Victor e Léo ou do Zezé Di Camargo, assista ao Faustão, ao Luciano Huck ou sintonize numa dessas emissoras de rádio que ainda acreditam na indústria dos hits, do jabá, dos playlists fixos (40 músicas por dia?) e dos velhos padrões. Mas se quiser ler e discutir (compartilhar!) sobre música, de verdade, honesta, autoral, criativa, então espero que eu possa contribuir. Vamos caminhar nesta cauda longa. Você é meu convidado.