Goiania – O espectador que for ao Cine Cultura nesta semana que se inicia pode se deparar com um diálogo quase etéreo entre as sessões de Hotel Mekong (2012), do cineasta tailandês Apichatpong Weerasethakul, e A Caverna dos Sonhos Esquecidos (2010), de Werner Herzog. Os dois filmes, que estrearam por aqui na última sexta-feira (2/8) e ficam em cartaz até a próxima quinta (15/8), embora distintos em linguagem, ainda mais claramente, identidade cultural, parecem cultivar uma similaridade de espírito, de tentar arquitetar reflexões, sejam sólidas ou fugazes, a partir de uma imersão na natureza.
Herzog, com sua ampla experiência documental e as mais de 60 produções concebidas, no geral, com a disposição de alguém muito interessado no que pode haver de mais curioso no mundo que o abriga, é sempre esperado com a familiaridade que anos de cinema já lhe reservam, enquanto Apichatpong, por mais que tenha estourado de algum modo com sua Palma de Ouro em Cannes por Tio Boonmee que Pode Recordar Suas Vidas Passadas (2010), pode, sem muito esforço, se colocar na tela como se saísse duma cartola, sobretudo para o público ocidental e mesmo parte de nossa crítica e imprensa, que às vezes não sabe o que fazer com ele – ou vai que até sabe bastante, desenvolvendo alguma faísca de interesse, ainda que possa soar um tanto "desonesto" na hora que o filme começa a passar.
Não raramente, Hotel Mekong é tido como o "filme de vampiro" de Apichatpong. É verdade. Ou não?
Aqueles que já viram outros filmes do cineasta desconfiam, e com razão, pois existe ali um cinema particular, que versa pela autoria da fábula, do filme com fissuras, das narrativas de homens e espectros. Hotel Mekong tem muito de esboço, inclusive literalmente, pois há um mix de ficção e ensaio documental (de outro filme), mistura de registro e conto, tudo ligado pelo incansável violão de um músico. Vez ou outra surge uma mulher comendo um coração ou tripas humanas, sangue nos lençóis (belo cartaz, aliás), conversas sobre encarnações, todos os eventos situados no tal hotel, à beira do rio Mekong, cuja própria história muito interessaria a Herzog.
Apichatpong parece preferir o acontecimento por si só, a existência. A nós, cabe observar. O plano final é longo, fixo, o rio passa, ocupa quase toda a tela, e, bem comum na obra do diretor, agrega tecnologia e tradição num mesmo espaço, vistas à distância, pois o plano é bem aberto.
O fascínio exercido por Herzog é um tanto diferente, primeiro porque já é conhecido, vem embalado por sua inconfundível narração. É aquela coisa infalível, quase sempre tocante, interessado no que há de raro em suas oportunidades documentais, um perfeito escultor da natureza, e esse Caverna dos Sonhos Esquecidos não fica atrás.
Herzog e diminuta equipe são autorizados a adentrar e filmar o interior da caverna Chauvet, no sul da França. Logo de cara, frisa não somente como aquilo é importante, mas também importante para ele, pois não há, nos colocamentos de Herzog, nenhum receio de dramatizar a questão, pelo contrário. Daí vem parte do brilho de alguns de seus documentários, inclusive. Existe aqui um PS – PS mesmo, como numa carta – incrível, por exemplo, reflexão muito autoral, quase uma poesia ingênua para a humanidade, e, talvez justamente por isso, ou pela imagem de jacarés albinos dando gancho para o pensamento, munido de alguma beleza.
Nas paredes da caverna, as filmagens nos revelam pinturas e desenhos rupestres e ossadas de animais que ali viveram num passado distante. O clima do lugar é dominante, a sala de cinema parece logo se transformar numa outra câmara cavernosa e é fácil compreender o porquê de ter sido pensado numa versão 3D (o Cine Cultura exibe a cópia 2D, é bom avisar, mas a imersão é grande, até porque sou desses que vê na "imersão" do 3D uma mera redundância).
O documentário também colhe falas e informações de diversos pesquisadores, todos deles com aparente rigor e respeito em relação a esta caverna, alguns deles mais dispostos a se abrir ao filme, chegando a tocar uma flauta pré-histórica ou a simular o arremesso de uma lança. É bonitinho e muito humano.
O tour pela caverna e pelo tempo no Herzog age, inclusive, a favor de Hotel Mekong nessa sessão dupla, que, se visto isolado, poderia não ter surtido tanto efeito. Hotel Mekong talvez seja o Apichatpong mais enigmático, espécie de arranhada fluida e, curiosamente, musical. Só fui peneirá-lo melhor após ver Caverna dos Sonhos em seguida, pois há um momento no documentário de Herzog em que um pesquisador diz que, no lugar de homo sapiens, preferiria considerar um homo spiritualis. Os filmes de Apichatpong são justamente isso, um cinema de homo spiritualis.
A exemplo de Herzog, que busca compreender e aplicar uma visão em torno daquilo que foi traçado nas cavernas, por homens que tinham uma noção de mundo completamente distinta, e que tem a habilidade, não muito simples, de perceber um elemento artístico na própria concepção da natureza, talvez esta a nossa postura diante de um pequeno filme como Hotel Mekong. De sair tateando, guiados por luz, seja ela trêmula ou firme, o que pode nos parecer uma arte rupestre contemporânea.