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Onde reina a liberdade

28.08.2013 - 00:58:42
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Goiânia – Naquela segunda-feira, quase perdeu a hora. Tinha trocado o barulho irritante do despertador por outro que o irritaria igualmente daqui uns dois meses. O som não lhe era familiar e, assim, ignorou por completo. Foi despertado pela adrenalina que corria nas veias, quando se deu conta de que a semana recomeçara e não podia chegar atrasado no trabalho. Depois de quinze minutos fora do horário de entrada, já era. O ponto não era registrado. Perderia o salário daquele dia. E a credibilidade junto ao chefe.

Não era exatamente o trabalho que pediu aos céus. Bem, aliás, preferia não pensar muito nisso. Porque sabia, que no fundo, estava longe de ser o ofício desejado. Mas na verdade não sabia ao certo o que queria, no que era bom. Mas sabia bem que não gostava daquilo. Enquanto esperava uma grande fila de carros no trânsito esperando pelo sinal verde, tentava se lembrar do que tinha vontade na adolescência.
 
Lembrou-se que um dia teve a ousadia de dizer na mesa do almoço em casa que se dava bem com as palavras. Pensava em cursar Letras e ser escritor, esses sonhos de adolescente. O pai logo lhe cortou. Disse que não dava futuro. Engenharia, Medicina ou Direito. São esses os caminhos para não se passar fome nesse país, o pai disse em tom de discurso fazendo a mesa de palanque. Pais sempre têm razão, concluiu depois de mais de dez anos. 

Era agosto. Faltavam quatro meses para o Natal. Nesse tempo, apenas dois feriados não cairiam em fins de semana. Buscou algo mais excitante. Pensou que faltavam exatos 155 dias para as férias. Havia comprado um pacote que saltou em seu e-mail. Era exatamente o que a turma do trabalho comentava. 

Um pacote para Miami parcelado em dez vezes. Até as próximas férias, estaria pago. Enquanto pensava nos dias sem despertador e como seria bom tirar fotos na praia terça à tarde e postar no Instagram, se deu conta de que ainda faltavam 155 dias e muitas horas de trabalho pela frente.

Teve de mudar a rota nesse dia. Um acidente na principal avenida que levava ao trabalho a interditava. Um ônibus havia atingido um motociclista. Coisas que acontecem quando se acorda atrasado. Por outro lado, pensou como tinha sorte. Havia comprado seu carro há três meses. Poderia ser um desses azarados que vivem à mercê do transporte público. 

Voltou a fazer contas. Lembrou-se que já era dia 10. Dia de vencer as contas. Cairia os R$480 da parcela do novo carro. Também pagaria uma parcela de R$500 do seguro do veículo. Pronto! Faltava pouco mais que dois terços do salário para o resto das contas! Quis resmungar, mas olhou pro tercinho enrolado no retrovisor e agradeceu pelo trabalho. Poderia pagar por não depender mais de transporte público e estar livre dos perigos de bandidos roubando o último investimento, a custas de tanto suor. 

Ao agradecer, lembrou-se que nesse mês cairia na conta o aumento salarial. Há seis meses já sabia o que fazer com ele: pagar por um bom plano de saúde. Arrastava-se por anos uma coceira na pele. Foi em vários médicos, pagando um por um, sem plano. Ninguém conseguia dar uma saída para aquilo, mas todos repetiam a causa: estresse. Bem, agora queria encontrar um bom médico para dar jeito nisso. Um colega do trabalho tinha comentado que conhecia um experiente nisso, que atendia pelo plano. Ademais, estava sentindo dores nas mãos. Desconfiava de LER. Mas preferiu esperar pagar pelo plano para ir ao médico. 

Mas também pensou em ficar mais um tempo sem o plano de saúde até o próximo ano, quando recebesse um novo aumento. Planejava ter filhos e pensava que seria prudente começar a fazer uma poupança. Eram somente ele e a esposa na cidade, sem a possibilidade de ajuda de parentes para ficar com a criança. Isso deixava a esposa mesmo preocupada. Não confiava em contratar qualquer empregada. Pensavam em fazer uma poupança para a creche da criança, para utilizá-la assim que terminasse a licença-maternidade. Mas depois concluíram que os planos do bebê deveriam ficar mais para frente. Primeiro o plano de saúde.

Já virando a esquina do trabalho, pensou que os pensamentos que lhe tomaram ao acordar eram tão injustos. Era com esse trabalho, com esse salário que pagava pelo privilégio de não ter de esperar médicos em fila do SUS e de não se espremer em um ônibus para chegar atrasado ao trabalho acordando bem mais cedo do que acorda agora.

Bateu o ponto. Exatos 14 minutos atrasados. Contou as horas pras nove horas. Para as dez, para as onze, para o meio dia. Foi almoçar no mesmo restaurante por quilo de sempre. O cheiro do lugar ele já sentia antes de entrar. Pensava em alguma alternativa, mas também não aguentava mais o Subway da esquina. Revezava entre os dois pensando no dia em que conseguiria morar perto do trabalho e comer em casa.

Voltou para o computador. Contou as horas para as três, para as quatro, para as cinco e para as seis. Agora só faltavam quatro dias para o fim de semana. Chegou em casa, sentou-se no sofá e ligou a TV. Tanto fazia canal 11, 2, 15, 16. Os jornais pareciam falar da mesma coisa, do mesmo jeito. Parou naquele em que o apresentador era mais simpático.
 
Comentavam que os médicos cubanos que viriam trabalhar no Brasil não ficariam com o salário todo para si. De R$10 mil, R$6 mil iriam para o governo. Respirou aliviado de não morar nem ter nascido ali. Na ilha onde reina a falta de liberdade.  
 
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por Nádia Junqueira

*Nádia Junqueira é jornalista e mestre em Filosofia Política (UFG).

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