Não me recordo de uma cidade que me cause tanto desconforto quanto Brasília. Depois de Goiânia, é o local aonde mais vou. É claro que Aparecida de Goiânia não conta, pois é uma extensão do local onde vivo. Essa frequência com que passo por lá acentua minha repulsa pelo concreto ostensivo do Distrito Federal.
São Paulo já me incomodava, mas agora está pior. A capital econômica do Brasil está se aproximando perigosamente da liderança até outrora confortável da capital política quando o assunto é me incomodar. Mas como a margem é grande, o primeiro lugar candango está garantido.
Cheguei ontem em São Paulo por motivos profissionais/musicais. Fui convidado para o lançamento da Kaiser Radler pela Heineken na terra da garoa e emendei a estada com uma viagem que já estava programada para assistir uma das bandas que mais amo no mundo, o Black Sabbath. Veja só você, cerveja e metal! Eu acho que estou levando o rock n’ roll a sério demais…
O hotel no qual estou hospedado é bem perto do aeroporto de Congonhas, mesmo assim gastei fartos R$ 43 para ser trazido até aqui de táxi. E bota congestionamento no caminho, e bota motoqueiro zunindo nos corredores entre os carros engarrafados com buzinas infernais, e bota estresse, e bota céu esquisito, e bota minha ranhetice cada vez pior com a idade e pronto: temos meu insuportável mau humor contagiando tudo dentro de um raio de 20 quilômetros.
Nem sempre tive essa má vontade com São Paulo. Já desejei morar aqui. Quando conheci a cidade com capacidade de entender o que rolava aos 17 anos (já tinha vindo antes aos 2 com minha avó e tia, mas não me recordo de nada), me encantei com as possibilidades paulistanas. A Galeria do Rock era tudo que eu sonhava em um único espaço. Eu tinha certeza que meu futuro seria aqui. Esse sonho durou mais uns cinco ou sete anos. Passou.
A vida foi me enrolando em Goiânia, elegi novas prioridades para minha existência, o mundo ficou menor com a popularização da internet e passagens aéreas a preços mais acessíveis. Com tudo isso, minha vontade de morar em São Paulo não só passou como se transformou em sonho de horror.
Quando vejo pessoas empurrando carrinhos de bebê nas calçadas que parecem formigueiros, me pergunto: “como zelar de uma criança nesse caos?”. Quando vejo velhinhos do cabelo branquinho andando lentamente no meio da correria, me pergunto: “como passar a velhice nesse caos?”. Quando vejo um suicida se arriscando por pedalar no meio do trânsito infernal, me pergunto: “como tomar esse tipo de atitude?”.
É claro que São Paulo mudou menos desde que a conheci do que eu. A culpa por essa implicância que tenho com a cidade é mais minha do que ela. Elegi prioridades antes impensáveis para minha vida. São Paulo continua sendo a balbúrdia que sempre foi. Quem mudou radicalmente fui eu. Azar o meu.
E preciso fazer justiça: mesmo com minha birra com São Paulo cada vez maior, Brasília ainda é incrivelmente mais assustadora. Com todos os problemas, os paulistanos ainda vivem em uma cidade. Com aquela cara de repartição pública, os brasilienses parecem que dormem e se divertem no escritório. Que vida horrível deve ser essa…
Atualmente penso cada vez mais seriamente em deixar Goiânia daqui uns anos. Tenho algumas ideias e zero de certezas. O que me guia é a vontade de ir para um lugar mais tranquilo que minha cidade natal. Pode ser uma capital menor no Nordeste, pode ser uma cidade do interior, pode ser até na gringa. Não sei. Mas se tenho convicção de que não será para onde o estresse é maior. Logo, São Paulo está imediatamente descartada do meu rol de possibilidades.
São Paulo é só para show e fartura gastronômica mesmo.