Ontem assisti ao jogo do Brasil com a Argentina e me diverti como há tempos não acontecia. Preciso ser sincero: não tenho mais envolvimento emocional com o escrete canarinho. Perdi aquela vontade de que o time ganhe, aquela coisa que lhe incomoda internamente quando perde, aquele interesse genuíno pelo assunto. Nem se compara à minha relação com meu time de coração (no caso, o Goiás) e meu time de simpatia (Flamengo). Mas ontem foi diferente.
Torci, xinguei e me emocionei. E nem foi só no tocante hino nacional cantado à capela pela torcida paraense. Foi com o jogo mesmo. E parei para pensar no que havia mudado para que eu me envolvesse de forma especial com aquela partida. Cheguei à uma simples conclusão: eu sabia os times que os jogadores atuavam. Isso mudou tudo na minha cabeça. Eu tinha algum tipo de relação com quem estava em campo, tinha alguma referência dos caras. E isso me motivou.
Por exemplo, eu sabia que o zagueiro joga no Atlético-MG pois me lembro das bolas roubadas pelo cara no jogo contra o Flamengo. Sabia que o goleiro é do Botafogo pois admiro o tanto que o cara cata. Sabia quem era Diego Souza e que jogava no Vasco, pois ele arrebentou na última rodada com três gols contra o Cruzeiro e fez meu Cartola disparar na pontuação. Sabia dos dribles eficazes de Neymar, das disparadas de Lucas, das faltas cobradas pelo Ronaldinho Gaúcho. Ver aqueles caras que jogam em times distintos e que acompanho rodada a rodada fez com que a partida tivesse outra perspectiva aos meus olhos. E confesso que me diverti muito mais ontem do que em jogos anteriores da Seleção.
Você já deve estar aí com seu argumento na ponta da língua: “mas os melhores do mundo estão na Europa!”, “a Seleção perde muito sem esses jogadores”, “o time não fica competitivo” e mais um monte de questões totalmente plausíveis. Mas, na boa, não me importo uma vírgula. Com jogos da Seleção, eu quero mais é me divertir. Não tenho interesse em resultados. Não ganho nada com isso. E se a meta é a diversão, é inegável que a escalação de ontem me envolveu mais do que a da Copa do Mundo do ano passado.
Me interessa mais o Dedé que vai jogar contra o Flamengo atuando pela Seleção do que o zagueiro brasileiro recordista em desarmes do futebol ucraniano. Me interessa mais o lateral do Botafogo que vai jogar contra o Atlético-GO na próxima rodada vestindo a amarelinha do que o lateral brasileiro que joga horrores no Real Madrid ou Barcelona. Simples. Quem é melhor ou pior, não é essa questão que me preocupa. O que me diz ao coração é o vínculo. E a Seleção de ontem tinha vínculo comigo. Espero que essa experiência de convocar só jogadores que estão no Brasil se repita mais vezes.