Goiânia – O debate acerca das biografias ganhou a pauta do Brasil. Após o posicionamento do Procure Saber que questiona a existência de livros que contem a história de figuras públicas do Brasil de forma não-autorizada, o assunto pegou fogo.
Foram entrevistas, artigos, declarações e polêmicas que fizeram todos tomar lado. Escritores, editores e biógrafos em um canto, figurões da música brasileira de outro. Para mim, é elementar que a defesa da censura prévia é um terrível equívoco. E o posicionamento de artistas que tanto admiro me decepcionou profundamente.
Do grupo que de público botou a cara a tapa, admiro o trabalho de todos, exceto o Djavan. Deste, somado Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Milton Nascimento, eu não tinha expectativas acerca de posicionamentos políticos. Por isso não houve surpresa negativa. De onde menos se espera é que não sai nada mesmo.
Situação muito distinta em relação a Gilberto Gil, Caetano Veloso e Chico Buarque. Os dois primeiros são heróis para mim. Estão no patamar de Beatles, Stones, Led, Dylan e outros deuses desse porte. O terceiro goza de enorme respeito no meu conceito. Por essa moral que tinham comigo é que a frustração foi tão grande. Será que esses caras desaprenderam o que é censura? Será que o tempo é tão cruel assim que transformará meu amor por eles em quase nada? O que está passando na cabeça desses caras?
É provável que a iconoclastia tropicalista fosse mero ímpeto juvenil. Mas os caras não poderiam desprezar o próprio passado de forma tão grosseira. Se Fernando Henrique Cardoso pediu para esquecer o que ele escreveu, se Luiz Inácio Lula da Silva disse que suas críticas de outrora eram bravatas, o é proibido proibir de Caetano Veloso era puro oportunismo perante as ideias da juventude francesa.
O discurso ripongo e deliciosamente divertido de Gilberto Gil revelou ser só papo doidão. O discurso em prol das tecnologias livres quando foi ministro, casuísmo. Pois quando o assunto é o circular da informação, a coisa muda de figura.
Em relação ao apoio de Chico a essa proposta, a situação ganha transtornos ainda mais decepcionantes. O cara ainda hoje é tido como principal figura da resistência contra o arbítrio da ditadura militar. O artista-vítima mais conceituado dos anos de chumbo. Além do histórico pessoal, ele carrega um dos sobrenomes mais respeitáveis da história intelectual brasileira: Buarque de Holanda.
É triste ver um posicionamento de restrição à circulação do saber da parte desses caras. A defesa em participação nos lucros de tais obras é ainda mais deprimente. A cada disco que uma artista grava em homenagem a um deles, tipo um “ela canta Chico”, o tiozão galã garante uma cobertura em Ipanema de direitos autorais. Não é possível que a motivação seja grana. Tem algo nessa história que ainda não está claro. Está faltando uma peça para o quebra-cabeça ser montado.
Defender censura prévia é tão absurdo quanto achar que dar uns tapas em bandido para colher informações sobre a quadrilha é aceitável. Liberdade de expressão é a liberdade de todos dizerem tudo, até mesmo aquilo que vai profundamente contra tudo o que você acredita.
Caso caia nos chamados crimes contra a honra de calúnia, injúria ou difamação, o Judiciário está aí para ser acionado. “Ah, mas a Justiça brasileira demora demais!”. Sim, demora mesmo. E para tudo. Não é por você ser figurão da MPB que a coisa irá desenrolar prioritariamente. Os caras estão tão descolados da realidade do homem comum que chega a ser patética tal argumentação.
É frustrante ver seus heróis mostrando a faceta vil. Mas, por outro lado, é bom para percebemos mais nitidamente a divisão entre trabalho e posicionamento pessoal. O trabalho dos caras continua seno digno de meu amor. Ainda. Suas posturas… Bem, é melhor deixar de lado.