Goiânia – Estou ficando o velho mais chato do mundo. Cheio de manias e achando tudo deprimente. Se agora já estou na disputa de ser mais insuportável da temporada, imagine quando eu estiver com meus 80 anos bem vividos, uma bela barba longa, espessa e branca e um mau humor mais contagiante que conjuntivite no período sem chuvas? É melhor nem pensar.
Alguns dias atrás, enquanto eu almoçava sozinho em uma pizzaria do Setor Central, ouvia o pessoal da mesa ao lado discutir sobre qual cabeleireiro resolvia melhor as madeixas dos respeitáveis senhores. Fiquei chocado. Não imaginava que o metrossexualismo
estava tão generalizado.
Eu tinha dimensão da minha condição de minoria. Mas me imaginava pertencente à torcida do Botafogo. Percebi que estou na torcida do Goiânia.
Enquanto eles debatiam onde poderiam melhor tingir os cabelos na maior naturalidade do mundo, eu pensava no local onde corto o cabelo e faço a barba desde quando eu nem memória tenho: a Barbearia Guimarães.
O estabelecimento fica na Rua 59-A, no Setor Aeroporto divisa com o eterno Bairro Popular. Meu avô e meu pai me levavam desde moleque para cortar o cabelo ali. Ainda hoje nós três somos clientes do local, tocado também por pai e filho de sobrenome Guimarães.
É um local onde a verdade está em cada detalhe. Não é pensado para ser hype, descolado ou moderno. Ele simplesmente é o que é. As publicações disponíveis para leitura enquanto você aguarda sua vez de ser atendido determinam o público alvo do comércio: Placar e Playboy.
As fotos penduradas na parede são quase um abraço nos saudosos como eu em tempos de design de interior mais comum que arroz e feijão na mesa do brasileiro. Time de futebol, filho na escola, calendário de pequenos comércios. Impossível não sentir empatia no ato. O rádio sempre está sintonizado em uma emissora AM.
A conversa enquanto as madeixas estão sendo tosadas ou a navalha extirpa os pelos da face sempre passa pela campanha do Goiás, roubalheira na política e perguntas sinceras de como andam meus familiares.
Estou já alguns meses ausente da Barbearia Guimarães. Entrei em uma fase cabeluda e barbuda, o que me deixa longe do espaço que faz parte de minha história pessoal. Mas quando eu enjoar do visual Antônio Conselheiro, pode apostar que estarei de volta na cadeira de barbear do seu Guimarães.
Não sinto a menor vontade de entrar nos salões da moda, com suas técnicas de nomes importados. Meus paradigmas masculinos sempre serão John Wayne, Nuno Leal Maia e Júnior do Flamengo. Para quem pensa como eu, a Barbearia Guimarães é o local perfeito.