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Estrangeira na própria língua

30.09.2011 - 10:02:37
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Antes de vir para cá, foi corriqueira a piadinha: vai aprender português em Portugal? Pois é, se eu soubesse, teria respondido: isso, vou aprender uma nova língua. Porque é isso que tem acontecido. Eu fico tentando relativizar e comparar a diferença do nosso português para esse de cá, com o Inglês britânico e o americano. Mas a cada dia que passa, acho que nossa nada fraca miscigenação conseguiu dar uma boa sacudida em nossa língua. Há três aspectos mais relevantes que vou comentar: o vocabulário, o sotaque e a gramática.
 
Começando pela gramática, como boa goiana que sou, essa coisa de vós, convosco, conosco, tu, ti, contigo, além de colocar um essezinho no fim dos verbos como “queres”, “fazes”, nunca saiu da porta da sala de aula. Sempre passaram muito bem ali nos meus livros, cadernos, provas e quadro negro. Muito pelo contrário, a tendência no goianês é só diminuir. Um tu queres é muito bem representado por um cê qué. Acho elegante eles aplicarem gramática na prática, sabe? Mas muito difícil, a essa altura do campeonato, eu conversar informalmente com tanta formalidade. Tenho a mesma sensação com o com meu inglês: conheço a língua, me comunico bem, mas ainda tenho muito a aprender com vocabulário, sotaque e gírias. 
 
O sentimento de estrangeirismo é forte, principalmente, quando você resolve se alimentar. Na cantina da faculdade, onde almoço e janto, há o cardápio na porta, todos os dias. Ler ou não ler é quase a mesma coisa. Na verdade, tenho lido para aprender a ligar as coisas: aquele nome se refere a essa comida. Rojão, Vitela, migas e tantos outros que ainda não guardei direito. 
 
Se você vir uma pastelaria na rua, nem se iluda. Não haverá pasteis por lá, mas empadas. Que, convenhamos, não são muito parecidas com as nossas. Sabe o tal pastelzinho de Belém? Pois é, uma empadinha doce de massa folheada. Bem, no restaurante ou padaria, você pega um cardápio, que não é cardápio, mas ementa. Chopp é fino. Gelado é fresco. Fiambre é presunto. Patê é pasta. E descobri ontem que um misto é um croissant prensado. E nunca veremos uma placa escrito, temos pães, mas há pães. Num supermercado também se pergunta: há macarrão? E não: tem macarrão?
 
E se você vai se locomover, a coisa também muda bastante. Se você é pedestre, aprenda que a faixa se chama passadeira. Se vai pegar o ônibus, é autocarro e peça para parar na próxima paragem. O metrô, diz-se métro e o trem, carruagem. Evitando estrangeirismos, eles não dizem mouse ou xerox, mas chamam camiseta de t-shirt (com um sotaquezinho aportuguesado). A coisa vai longe: geladeira é frigorífico, pia é lavabo, vaso é sanita. E numa frase de algum português que se preze, em menos de cinco minutos você vai ouvir 'pronto' e um 'bocadinho' pelo menos uma vez. E a frase vai ser encerrada com um pá, pois ou tá bem. Quando ouço o pronto me lembro dos pernambucanos. "Sabes onde fica o IPB? Pronto! Segue a rua…". Já o bocadinho toma o espaço do pouco. Em qualquer situação. "Aguarde um bocadinho que te atendo." ou "Experimente um bocadinho".   
 
E também há as gírias: 'giro', é o mesmo que bonito. Dizem 'fixe' para coisas legais. Achei que era coisa de jovem, até que meu professor, de cabeça branca disse: “Paula, qual foto achastes mais fixe?”.  E falando em professor, descobri na faculdade que doutoramento é doutorado, ementa é plano de curso apenas, cadeiras são disciplinas e diapositivos são slides de power point. Ele também pediu para que fizéssemos um trabalho tragável para 'pá' semana. Próxima, entendi. 
 
E ainda têm os anúncios! Fico pensando que um publicitário brasileiro ia penar por aqui. Primeiro, há o fator de toda estrutura ser diferente, como num anúncio da Coca-Cola “leva-a fresca aqui”. E depois o aspecto cultural é muito interessante na composição de uma redação, porque o humor muda muito. Como num anúncio de imobiliária: “Casas? Comigo!”. Ou quando você chega num caixa eletrônico: “Você aqui de novo? Dinheiro voa, não é?”. 
 
Bem, e aí vem o sotaque. Como cheguei em Lisboa, não achei tão acentuado. Nenhuma novidade ou nada que não compreendesse. Mas foi só subir no ônibus para Bragança para me sentir muito amadora na língua. Tinha que prestar muita atenção para ouvir os informes do motorista ou gansar as conversas das pessoas. Eles parecem ignorar ou dar pouca importância para vogais e é aí que tudo fica muito enrolado e parecido com espanhol. E também achei muito engraçado crianças conversando desse jeito. Estereótipo, eu sei, mas só conseguia ver pessoas mais velhas com essa fala. 
 
Esses dias recebi uma ligação de um colega português e tive que pedir para ele me mandar uma mensagem. Eu não entendi nada do que ele disse. Num outro, estava entrando na universidade, à noite, para usar a internet. Dei boa noite ao guarda e passei direto. “Menina!”, ele me disse. “Oi”, respondi. “Não é oi que se diz, é diga”. É mole? Espero que, até fevereiro, eu tenha melhorado meu português.
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por Nádia Junqueira

*Nádia Junqueira é jornalista e mestre em Filosofia Política (UFG).

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