Larissa Lessa
Há dez anos, Eberty Fonseca resolveu trocar o cargo de gerente de contas de uma empresa de telecomunicações pelo próprio negócio. A promessa de aumento dos rendimentos chamou a atenção do empreendedor, que pesquisou e resolveu investir R$ 27,5 mil em uma franquia de serviços em costura. Ele hoje emprega uma costureira e contrata outra em tempos de aumento da demanda pelos serviços. O faturamento mensal médio da loja, instalada em um shopping de Goiânia, é de R$ 8.600, com lucro líquido de 20% a 30% desse valor.
O tipo de franquia aberta por Eberty, com foco na prestação de serviços e investimento inicial de até R$ 50 mil, ganhou o prefixo “micro” e vem conquistando espaço entre as marcas de franquia do país. Segundo dados da Associação Brasileira de Franchising (ABF), existem hoje no Brasil 260 redes de microfranquias, que correspondem a 14% do total de marcas de franquia do país. O faturamento em 2010 dessas empresas foi de R$ 3,4 bi, 4,6% do total do setor. São 36 mil vagas de empregos geradas pelos microempresários, 5% das vagas abertas pelo total de franquias.
“A partir dessa nova nomenclatura o mercado percebeu que existiam franquias acessíveis para todos os bolsos. Com o crescimento da classe C recebemos um impulso forte de empreendedores que estão trocando o mundo do emprego pelo mundo do trabalho”, afirma o presidente do Comitê de Microfranquias da ABF, Artur Hipólito.
Maurício Galhardo, sócio da consultoria especializada em franquias Praxis Education, explica que a tendência é uma boa oportunidade para que as marcas consigam chegar a cidades menores em modelos compactos e mais baratos. “Além disso, alguns serviços que já eram prestados estão se transformando em franquias, como lavagem de piscina e serviços de pedreiro”, diz.
Em Goiás, os números ainda são tímidos – 1% das marcas de microfranquias registradas na ABF são goianas. Mas o coordenador do Programa Sebrae de Franquias em Goiás, Paulo Renato Fava Adorno, vê boas perspectivas para esse mercado no estado. “As microfranquias estão dando oportunidades para as classes que antes ficavam excluídas desse processo e que possam abrir o próprio negócio”, diz.
Dicas e cuidados
Os cuidados precisam ser redobrados para quem quer entrar no mercado das microfranquias. O consultor Maurício Galhardo sugere que o candidato pesquise a franqueadora, visite lojas da marca em outras cidades e, principalmente, converse com franqueados. É isso que tem feito o administrador Eduardo Alexandre Pereira. Há oito meses Eduardo estuda o mercado de franquias para abrir o negócio próprio. Como pretende investir até R$ 80 mil, o administrador vê como opção abrir uma microfranquia na área de prestação de serviços ou alimentação.
Eduardo recorreu ao Sebrae, viajou para outros estados para conversar com franqueados e mesmo assim não se sente seguro para fazer o investimento. “Há muitas microfranquias em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, mas ainda é difícil adaptar esses serviços ao nosso mercado, que precisa amadurecer. A demanda existe, mas precisamos criar uma cultura de mercado por esses serviços profissionais”, diz.
Cursos qualificadores
Para aqueles que, como Eduardo, avaliam a possibilidade de se tornar um franqueado, o consultor do Sebrae Paulo Renato lembra dos valores associados ao investimento. Além de pagar a taxa de franquia, o empreendedor tem que desembolsar os royalties, fundo de propaganda e precisa manter capital de giro para que o negócio continue funcionando nos primeiros meses. O empresário Eberty Fonseca afirma que 11% do seu faturamento mensal é destinado ao pagamento dessas taxas.
O presidente do Comitê de Microfranquias da ABF, Artur Hipólito, afirma que é essencial levantar cuidadosamente o valor a ser investido na franquia. “Você deve ter um colchão de poupança básica para atender suas necessidades pessoais e não confundi-las com as necessidades de investimento da operação”, explica.
Segurança
Segundo dados do Sebrae, 80% das empresas brasileiras fecham as portas nos cinco primeiros anos de atividade. Para as franquias, esse índice cai para 15%. Paulo Renato explica os números: “A franquia é vista como um negócio mais seguro, pois o franqueado compra um modelo que já foi testado e representa uma marca que já está consolidada no mercado”. Mesmo assim, Eberty se mantém cauteloso. Quando começou o negócio de serviços em costura, ele abriu três unidades da franquia na Capital. “O franqueador me disse que daria suporte administrativo e operacional. Fechei duas das três lojas porque não tive esse apoio”, afirma.
Além dessa preocupação, o administrador Eduardo Alexandre Pereira aponta o aumento dos preços das franquias como um problema para quem quer investir no negócio. “Sei que se abrir o negócio independente vou gastar 40% do que desembolsaria para pagar a franquia”, afirma o administrador.
Cursos gratuitos
Para quem pretende abrir uma franquia, o Sebrae oferece uma palestra gratuita sobre o segmento, além de um atendimento coletivo (R$ 40) e um curso (R$ 80) de capacitação. As próximas turmas devem ser abertas em novembro e o interessado deve agendar a participação pela Central de Relacionamento do Sebrae, pelo telefone 0800 570 0800.
Perfil
Paulo Renato lembra que o dinheiro não deve ser o principal fator a ser levado em consideração no momento de abrir uma franquia. “É preciso ter o perfil adequado para fazer parte daquela operação”, destaca. Ele sugere que o candidato liste três segmentos com os quais se identifica e, a partir daí, afunile as opções de negócios. “Não dá para abrir uma padaria se você gosta de acordar tarde”, brinca.
O presidente do Comitê de Microfranquias da ABF, Artur Hipólito, concorda com o consultor do Sebrae. “Verifique se existe compatibilidade entre o negócio à vista e suas habilidades, pois em microfranquia ninguém fará por você o que o dono precisa fazer”, destaca. Depois de todos esses passos, o momento é de colocar em prática todas as habilidades adquiridas durante as fases de pesquisa e capacitação. “Trabalhe como nunca trabalhou”, aconselha Artur Hipólito.