Gostei da iniciativa da Polícia Militar de começar um trabalho contra as armas de brinquedo. Nem vou entrar no campo mais prático, dos criminosos que usam da perfeição das réplicas para cometerem atrocidades pela cidade – é mais que elementar que esses casos devem ser reprimidos com vigor. Quero me ater no campo simbólico, da destruição dos brinquedos e da tentativa de construir uma sociedade sem que as armas sejam tidas como algo divertido na fase lúdica da vida.
Quando moleque, tive muitas armas de brinquedo, de tudo que tipo. Roupa de caubói com coldre e revólver de espoleta, metralhadora e capacete verde-oliva do Exército Brasileiro, espada do He-Man, nunchaku do Bruce Lee, estrelinha de ninja dos Changeman…
Na época, era divertido brincar com isso. Assim como era divertido zoar para cima dos mais frágeis na escola (que hoje tem o nome de bullying), fumar escondido dos pais no fliperama, atirar em passarinho com estilingue, entre outra tantas coisas impublicáveis que não me orgulho de ter feito. O mundo era outro.
Atualmente, não consigo compreender que um adulto presenteie uma criança com uma réplica de arma. Assim como é difícil para meu entendimento alguém molhar a chupeta de um bebê em bebida alcoólica, por exemplo. Considero estímulos dispensáveis para alguém em idade tão tenra.
Não acho que brincar com réplicas de armas de fogo esse seja o único motivo da violência. Considero esse tema com raízes múltiplas. Eu tinha convicção de que a distribuição de renda extremamente cruel do Brasil era a principal causa do problema. Hoje não tenho essa certeza.
O início desse processo de uma vida mais justa que o Brasil vive já era para ter refletido nos índices de violência, com pelo menos a estabilização dos números. E não é isso que vemos. A violência cada vez mais brutal na nossa cara está aí para não me deixar passar de mentiroso.
Nesse sentido, hoje tendo a acreditar que de fato somos um povo de cultura violenta. E aí a ação da Polícia Militar se justifica. É nas crianças que devemos apostar nossas fichas para que a transformação venha no futuro. É óbvio que só isso é insuficiente. Mas, no campo simbólico como ação de longo prazo, considero uma iniciativa interessante.