Reservo minhas férias em janeiro há uns dez anos. E entro em ritmo de férias já na segunda quinzena de dezembro, quando todo o Brasil pega o clima das festas de final de ano e é quase uma deselegância puxar qualquer papo mais sério com alguém. Eu adoro esse período do ano. Meu fígado odeia.
Normalmente, o que é bom para minha cabeça não é bom para meu corpo. Não tenho dúvidas que quando a folhinha aponta dia 15 de dezembro, meu fígado tenta se esconder de mim. Uma vez já o encontrei camuflado atrás do meu calcanhar. Esse malandro…
O problema é que ele não entende que os convites para as bebedeiras em dias despropositados e comilanças diárias são sedutores demais para um velho glutão como eu. Juro que tento manter a linha, pegar leve nos dias de semana e até sigo bem esse propósito em dez meses do ano. Nas férias de janeiro não dá; em dezembro o mundo não deixa.
Todo dia recebo um convite para uma confraternização de trabalho, um lançamento, um encontro dos velhos amigos, uma mensagem no Facebook… E todos têm aquela frase mágica que é tão difícil dizer não: “vamos tomar uma antes do final do ano?”. Para quem é chegado, negar não é mole.
Meu fígado deveria ter escolhido melhor seu dono lá atrás. Não é agora, 34 anos depois, que ele vai ter a ousadia de pedir divórcio. Ele quer me manter longe do álcool, das comidas indigestas, da alimentação nada detox. Bobinho. Ele está cansado de saber que minha carne é fraca e a do prato é de um sabor indescritível.
E cada chope que encaro, cada garrafa de vinho que compartilho, cada brinde que faço, cada prato farto que aceito vão para a barriga. E não estou falando do estômago, estou falando da pança mesmo, cada dia maior.
Tento me convencer de que não é tão grave. Penso comigo que não há problema algum. Basta pegar mais pesado na caminhada quando voltar a rotina em fevereiro. Do tanto que estou abusando, daqui a pouco vou ter que me mudar para Trindade só para peregrinar a Rodovia dos Romeiros de ponta a ponta caminhando todos os dias. Não há no mundo exercícios suficientes para compensar as calorias que eu alegremente boto para dentro nessa época.
E o problema é que meu hedonismo é muito mais forte que qualquer tentativa de convencimento por um final de ano mais saudável. Vamos deixar esse papo para depois das festas. Afinal, o ano foi de estresse, a vida é curta e dezembro passa rapidinho.
Deixe-me ir embora que hoje tem outra confraternização que não posso faltar.
É só eu falar tim-tim que meu fígado responde com uma pontada. Azar o dele se tem que encarar serviço extra no final do ano. Cada um que carregue sua cruz.