Minha tarde de hoje foi embora andando pelos corredores de um shopping. Eu estava organizadinho, pautado sobre o que comprar e para quem cada coisa seria. Não fiquei batendo perna de forma aleatória, passeando, olhando vitrine. Entrei focado. Tinha aquele olhar de jogador da Seleção Brasileira contra a Espanha na final da Copa das Confederações. Tudo em vão.
Achei que seria rapidinho. Doce ilusão. Não existe a palavra rapidinho quando estamos tratando da compra dos presentes de Natal. A treta é longa, as filas demoram, a paciência de um bicho velho igual eu tende a zero. Um martírio. Acho que foi por isso que João Goulart criou o décimo terceiro salário: uma forma de compensar a exaustão mental e física do trabalhador brasileiro ao comprar algo para quem gostamos.
Por que precisa ser tão extenuante tal função? Por que as pessoas andam cegas e atraídas pelas vitrines tal qual mariposas ao redor da lâmpada? Por que as lojas têm músicas tão altas, rápidas e de péssimo gosto? Por que nos cobram estacionamento se deixamos uma pequena fortuna em badulaques dentro do shopping? Por que uma fila para pagar o produto, outra para pegá-lo e uma terceira para embrulhar? Alguém aí sabe me responder por que diabos essas coisas acontecem?
Desde a adolescência tenho pavor de shopping. Se tiver cheio, o pavor se transforma em ódio. Caso acreditasse nessas coisas, até pensaria que em outra encarnação eu pudesse ter morrido em alguma aglomeração em um centro de compras. Como não tenho fé nessa hipótese, penso que seja só rabugice mesmo.
Em outros anos, fui mais esperto. No início de dezembro fazia meus pedidos pela internet e recebia tudo no conforto do lar. Não sei explicar a razão pela qual larguei esse hábito tão salutar. Dizem que com a idade ficamos mais sábios. Definitivamente não é meu caso. Fico mais velho e mais burro com o passar do tempo. Esse é o meu clube!
Quando cheguei ao estacionamento do shopping, (mais) um dilúvio caia sobre Goiânia. Nem preciso dizer do cenário que encontrei pelas ruas, não é mesmo? Caos completo: sinaleiros pifados, carros arrastados, enxurradas que parecem córregos, árvores tombadas… Precisava de algo para descansar minha cabeça. Liguei o som e coloquei um Doors para tocar em volume, digamos, bem audível.
Só uma coisa latejava na minha cabeça enquanto Jim Morrison cantava “she lives on love street”: ano que vem não passarei por isso de novo!