Aline Mil
O ator e diretor goiano Marcos Fayad inicia, nesta quarta-feira (5/10), um dos trabalhos mais desafiadores de sua carreira. Por tempo indeterminado, Fayad interpretará, todas as quartas e quintas-feiras, o polêmico dramaturgo francês Antonin Artaud (1896-1948) no ritual tetral “A realidade é doida varrida”. O espetáculo será encenado sempre às 21h e inaugura o espaço anexo ao teatro Sesi, em Goiânia. De acordo com Fayad, a temporada durará enquanto houver público para a peça.
Maturidade
O roteiro do espetáculo foi escrito pelo ator Rubens Corrêa, em conjunto com o diretor Ivan de Albuquerque, ambos cariocas e já falecidos. Corrêa encenou Artaud durante sete anos no porão do Teatro Ipanema, na cidade do Rio de Janeiro, em sessões sempre lotadas. Fayad conta que recebeu o texto das mãos do ator em 1995, um ano antes de seu falecimento e, sabendo do peso da atuação, o goiano afirma que só 16 anos depois é que se sente maduro o suficiente para protagonizar o roteiro.
Marcos Fayad também pontua que este é o momento ideal para reavivar o texto da peça pois, segundo ele, o teatro brasileiro passa por um momento “absolutamente superficial”. O ator acredita que é essencial escapar da ditadura da arte linear e realista ofertada ao público através de comédias ligeiras e vazias. “As pessoas só querem rir, como se a vida fosse feita só de som e nunca de fúria. Nesta peça, as pessoa são obrigadas a pensar,” destaca.
Teatro da Crueldade
Para tanto, Marcos explica que seguiu à risca o que propôs Artaud, não apenas colocando no mesmo plano plateia e ator, como também cuidando para que sua interpretação fosse oferecida às pessoas que desejam ver, no teatro, algo além do realismo simplório de histórias lineares com princípio, meio e fim. “O texto traz um surto de lucidez tão profundo que pertuba o espectador. Uma verdadeira reflexão que mexe com a nossa alma. Não é por acaso que todos os grandes escritores do mundo afirmam que Antonin Artaud foi o homem mais lúcido do séc XX”, acrescenta.
E foi da lucidez visceral que Artaud trouxe o conceito do Teatro da Crueldade. Gritos, onomatopeias e toda uma linguagem absolutamente espacial geram a importâncial intelectual e sensível da obra do francês. “O Teatro nunca é cópia, nem realidade, mas sempre sonho,” pontuava o dramaturgo. O ensinamento dá o tom ao novo trabalho de Fayad.
A peça é encenada na sala de um hospício em Rodez, na França, e a plateia é parte essencial do espetáculo. “No texto, Artaud conversa com parentes que estão visitando os internos. E, como ele era uma pessoa que surtava, não tinha uma personalidade fácil, nós dividimos meu espaço com o do público com uma rede feita com arame grosso, para proteger a plateia”, conta Fayad.
Reservas
Além de atuar, Marcos é responsável pela cenografia, músicas, figurino e direção do espetáculo. A iluminação fica a cargo de Alexandre Greco e a sonoplastia é de Tião Sodré. Já a programação visual e a montagem da cenografia são, respectivamente, de Josemar Callefi e Enoch Moya. A produção da peça é da Cia. Teatral Martim Cererê.
Fayad adianta que a peça também será encenada na capital paulista e, em seguida, no Rio de Janeiro, no Teatro Cândido Mendes. Vale lembrar que a lotação máxima por noite da peça no anexo do Teatro Sesi é de apenas 30 espectadores. Os ingressos custam R$40 (inteira) e as reservas devem ser feitas pelos telefone (62) 3269-0808.
Serviço:
Anexo do Teatro Sesi (Av. João Leite, nº 1.013, Setor Santa Genoveva. Ao lado do Clube Antônio Ferreira Pacheco.)
Horário: 21h
Convites: R$40 (inteira) e R$20 (meia)
Lotação máxima: 30 espectadores por espetáculo
Reservas: (62) 3269-0808