Assustou com o título acima? É a noite de Bragança. Mas vou explicar. E não deixe de clicar nos links que vou passar. Não tenho muito para onde correr aqui. Ultimamente em Goiânia, antes de vir, eu passava bem de bar em bar (ai que saudade de comer um espetinho completo e do chopp do Glória), nas festas no Martim Cererê, Metrópolis ou El Club. Nunca fui muito de boate-do-momento, essa coisa de Sedna e Royal, nunca pisei. Nem me interessei. Há uns anos freqüentei House Garden, mas não demorou muito para eu ver que não é minha praia. Aqui não tenho muita saída: é boate! Aliás, discoteca, o pá!
Por aqui, se quiser só tomar uma cervejinha, as opções são os pubs. Mas eles chamam de cafés (mas se serve cerveja, e não café). Também, sempre badalados. Fora eles, são quatro boates que se revezam durante a semana por se encher de moradores e Erasmus. Bonitas, boa estrutura, preços bons, sempre tem uma promoçãozinha para Erasmus, mas a música. Ai, a música. Uma experiência antropológica a cada saída. Fico tentando lembrar o que eu achava que ia ouvir aqui: house? Ou qualquer coisa eletrônica do razoável ao ruim? Pois é: muito Michel Teló e kuduro. Todo dia. Em toda boate. Todo mundo cantando junto.
É bom para enrolar a língua de quem acha que aqui, no velho e civilizado mundo, as pessoas só gostam de coisas elaboradas ou tradicionais. Que a cada esquina vai ter alguém tocando violino. Aprendi, inclusive, que farofeiro aqui se chama azeiteiro. Música de massa é música de massa, minha gente. Em Goianésia ou em Bragança. E tem mais, saudade de não chegar em casa fedendo cigarro. Todos fumam nos locais fechados e não tem uma noite que você não volte para casa parecendo que rolou num cinzeiro. Parabéns, Brasil!
Descobri também que o sertanejo não só é universitário, como faz intercâmbio. “Nossa, nossa, assim você me mata. Ai, se eu te pego, ai, ai, se eu te pego”. É essa a sensação de Bragança. (Nesse instante que vos escrevo ouço meninas gritando essa música ali no trote da faculdade de saúde). É, inclusive, a cantada fuleira que os portugueses fazem para gente quando andamos na rua (para não dizer faculdade, tá?). Eu nem sabia qual a cara do tal Michel Teló até ele estar estampado nos telões das boates. Inclusive descobri que aquela “o jeito é dar uma fugidinha com você” também é dele, achei que era pagode. Você não tem a opção de sair aqui sem ouvir isso, eu que sempre consegui fugir do sertanejo, mesmo sendo sua conterrânea.
Outra importação que rola é axé. Quando toca “ei, e daí, se tem mulher solteira dá um grito que eu quero ouvir” a mulherada portuguesa sobe no palco ou grita muito. E rebola como se não houvesse amanhã. E tem essa também batendo ponto na balada, cuja letra se resume a “bará bará bará, berê berê berê”. Mas essa aqui é de deixar qualquer capoeirista se coçando de raiva. Eu não sou, mas fico imaginando os que conheço vendo essa música bombando nas pistas. Mas vou confessar qual a pior parte. Eu não sinto a mínima brasilidade quando escuto essas coisas. Na verdade, nas oito primeiras vezes me deu vontade de ir ali buscar uma cerveja ou ir ao banheiro. Eu fui. Mas, por fim, você vai abstraindo e sendo vencida.
Falando em ser vencida, quem me ganhou foi o kuduro. Porque nós não somos os únicos colonizados a exportar música azeiteira. Esse ritmo, assim como o kizomba (tipo zouk) vem lá da Angola e também dominaram as pickups por aqui. O kizomba se dança a dois. Sorte sua se tiver um africano na balada pra te ensinar a dançar. Te faz achar que arrasa na dança. Você pode ouvir essa, essa e essa música de kuduro. E dança todo mundo juntinho, fazendo passinho, como nesse video.
Como não me lembrar da minha mãe? Qualquer festa de casamento, 15 anos, Natal ou sei lá e começa um “Stayin’ Alive” lá está ela fazendo passinhos complexos, comandando uma turma. Ela pegaria o passinho na primeira noite. Peguei na segunda. Ou na terceira. Até que domingo passado as brasileiras aqui de casa que estão aqui desde fevereiro deram um workshop para todo mundo. E sério, danço de turminha na balada agora.
Aí, para fechar o setlist-nosso-de-cada-dia, no meio da noite, do nada, dão uma pausa no frenesi e soltam um “someone like you”, da Adele. É tipo o momento dor de cotovelo da noite, aproveitando do álcool que já subiu. A idéia é: pense em algum rolo mal sucedido, um romance que ficou no Brasil ou lembre da família e dos amigos, feche os olhos, cante alto, abraçando alguém com um braço e levantando o outro. Pronto. Pode tirar a cara de choro que o kuduro voltou. Oioioi, oioioi!
E no último fim de semana foi reinaugurado o bar com karaokê da cidade. A sensação! Estava lotado e dá-lhe portugueses cantando Ivete Sangalo: “hoje sou feliz e canto! Só por causa de você!”. Não, dessa vez eu não cantei. Mas só porque tinham encerrado as inscrições. Porque intercâmbio é isso aí: não ia para boate? Agora vai. Não cantava sertanejo? Agora canta. Nunca cantou num bar com karaokê? Agora sim. Nunca dançou de turminha na boate? Agora dança. Mas ainda tenho esperanças de encontrar uma bossa nova em qualquer esquina. Ou uma roda de coco, quem sabe.
Eu danço kuduro
*Nádia Junqueira é jornalista e mestre em Filosofia Política (UFG).