Goiânia – Não assisti nenhum capítulo da novela Em Família. E nem vou. Sou muito restritivo com o tipo de droga que consumo. Novela não é a minha há muito tempo. A última que vi foi Tieta, com Betty Faria no papel principal. E lá se vão décadas. Bobagem por bobagem, fico com as mais pesadas. Como o futebol. Minha cota de perda de tempo já é bem consumida com esse mau hábito.
Mas foi impossível passar batido com a comoção que nosso Estado viveu nos últimos dias. Cada cena em Goiás Velho, cada referência a Goiânia, cada pedra de Pirenópolis eram comemoradas como gol da Seleção na Copa do Mundo. Compreensível.
Vivemos em um Estado periférico, que só entra na pauta nacional em situações excepcionais. Avião que cai em shopping, cápsula de césio aberta no Setor Central e por aí vai. Não nos é rotineiro ser pano de fundo no principal horário da teledramaturgia da Rede Globo. É claro que circunstâncias assim atraem mais atenção. Isso gera uma curiosidade para ver de qual forma os espaços que tão bem conhecemos foram retratados.
As redes sociais ficaram em polvorosa com alguns fatos da novela. Situações inverossímeis, descrições que não batem com a realidade, hábitos que não são nossos colocados como usuais. Mais uma vez, normal. A obra é ficcional. Se nem quando é o momento de falar a verdade, que é no Jornal Nacional, a Globo é um exemplo, imagine se teria esse compromisso com uma novela. É elementar que não.
Essa distorção não me gerou ódio. Não me despertou nada. Eu sinto muito, mas eu não sinto nada, como lindamente me ensinou o Porcas Borboletas. Minha vida não depende de como a (ex?) namoradinha do Neymar foi mostrada em meu Estado. Não acho isso bom. E nem ruim. Não acho nada.
Esse importante produto cultural brasileiro que é a novela (e não estou sendo irônico quando digo isso) não tem relevância para mim. Na maioria dos casos, os atores são bons, mas a interpretação costuma ser histérica. A qualidade técnica é inegável, mas fica a mercê dos clichês. Os roteiros são rasos, não oferecem nuances.
A dimensão humana, qualquer complexidade que o personagem possa ter são reduzidas num maniqueísmo vulgar. Em vez de tentar puxar para o alto, eles reduzem a altura do sarrafo para facilitar. No meu entender, um equívoco. Mas eles devem estar certos: a Globo segue faturando alto com as novelas e é exatamente para isso que elas existem.
E como o tempo é curto, não dá para dedicar tantas horas a algo tão primário. É tanta coisa para ler, para ouvir, filmes para assistir, seriados cada vez melhores para ver, amigos e familiares que a vida não me deixa ter a intensidade de contato que eu gostaria que eu me sentiria muito culpado vendo uma novela, mesmo que os locais que amo estejam na tela.
Prefiro viver em família. Com a minha família.