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A desilusão provocada por Maurício de Sousa

12.04.2014 - 10:04:50
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Goiânia – “Pelo domingo que é lindo, novela, missa e gibi”. Quando penso nos meus domingos de infância, penso que eram bem parecidos com esse de Chico Buarque. Foi aos domingos que criei minha afeição por Maurício de Sousa. A ansiedade pelo gibi novo. E por terminar de ler logo para trocar o meu com os dos meus irmãos.

A vontade de morar no Limoeiro. A genial ideia de vender limonada na rua. A identificação com Mônica, pelos dentes grandes e pela braveza. Rir muito do Chico Bento. Maurício de Sousa definitivamente cativou um espaço no meu coração infantil. Mas eu tomei um banho de água fria.

Decepção é o nome disso. Na verdade, depois que cresci, nem quis saber quem era mesmo Maurício de Sousa: o que pensa, o que produz, o que defende. Imaginaria que ele lucrasse muito com o universo infantil (descobri que a marca do cartunista tem mais de 3 mil produtos licenciados e fatura 2,7 bilhões de reais por ano). Mas minha ingenuidade ficou ali na infância como meu escritor querido. Talvez por isso minha decepção tenha sido quase infantil.


                           (Reprodução:Instagram Maurício de Sousa)

Ele publicou essa foto em seu instagram. A foto de uma criança defendendo a propaganda infantil. É claro, a informação acima sobre seu lucro justifica a defesa, o que não deixa de ser uma contradição que me decepciona. Acontece que ele rema contra maré. Na semana passada, o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) recomendou o fim da veiculação de propagandas voltadas às crianças por defender que “a prática do direcionamento de publicidade e comunicação mercadológica à criança com a intenção de persuadi-la para o consumo de qualquer produto ou serviço é abusiva e, portanto, ilegal segundo o Código de Defesa do Consumidor."

Maurício talvez não entenda que defender a propaganda infantil é deixar de defender um mundo que ele cativou em vários de minha geração. Um mundo que ele mesmo criou: das crianças que estabeleciam relações de amizade, enfrentavam desde criança as dificuldades de lidar com as diferenças e a grande graça de brincar na rua. E se divertiam com um gibi barato de banca de revista aos domingos.

Defender a propaganda infantil é defender uma avalanche de produtos que cada vez mais afastam umas crianças das outras (ou você ainda vê muitas propagandas de jogos coletivos?). Essa defesa aproxima o escritor de seus lucros e afasta as crianças dos próprios gibis, aquela minha primeira leitura que me faria para sempre amante das letras e histórias. A tentação por brinquedos muito mais interessantes, estimulada pelas propagandas, aumenta ainda mais o desafio de cativar o prazer pela leitura.

Defender a propaganda infantil é assinar embaixo de um processo de des-educação, dificultando o trabalho dos pais. Basicamente porque uma criança, um ser humano em formação, está sendo formada em diversos aspectos.
 
Se nenhum de nós, adultos formados, estamos imunes aos efeitos da propaganda, quem dirá uma criança? Vejo uma propaganda da Coca-Cola e me dá uma baita vontade de comprar uma (se for dia de calor então…). Mas eu tenho meu domínio e consciência de saber que não dá para ceder àquele desejo (não sempre, pelo menos). 

Vejo a propaganda de um celular superinteressante e posso até ficar com vontade de comprá-lo. Mas eu sei qual o meu limite financeiro para dar conta daquilo. Ou, além, tenho a consciência de não ceder à infinita oferta de tecnologia que tenta nos convencer de que temos que trocar tudo que temos, mesmo que ainda funcione.

Uma criança não tem domínio de nada disso. Ela vê algo e quer aquilo no mesmo momento – quanto menos for estimulada, menos trabalho vai dar para os pais. Ela não tem idéia de como está o orçamento dos pais para ter a sensibilidade de saber que nem deveria pedir aquilo. Aliás, ela nem é dona daquele dinheiro e cresce pensando que seja. 

Não tem consciência de que comer chocolate e fast-food quando der vontade (nesse caso, toda vez que for estimulada por uma propaganda) vai acabar com sua saúde. Muito menos tem a consciência do mundo consumista no qual está inserida e de que é preciso não ceder a tudo. Quanto mais bem formada ela estiver para dar conta da avalanche consumista, melhor. Isto é, quanto mais tarde isso for, mais prudente.
 
Incentivar a propaganda infantil é antecipar um processo violento no qual as pessoas são formadas para consumirem. É assinar embaixo de uma educação que cria consumidores e não cria gente.

Desde cedo, ela já é conhecida pelo seu poder aquisitivo. Posiciona-se no mundo pela sua capacidade de consumo – o que, de cara, já coloca milhares de crianças num processo de exclusão. Ela entende muito pouco ou quase nada do mundo onde vive e de como se relacionar com as pessoas. Mas já sabe o que quer, onde e como comprar. “Parcela, mãe?”.  

Por fim, incentivar a propaganda infantil é afastar as crianças delas mesmas. É defender o mal-estar nos ambientes onde elas vivem: uma comprou o que viu na propaganda e a outra não. Gerando mal estar, talvez maior ainda, nos pais que não conseguiram comprar o que o filho quis. Ou talvez pior, conseguiram (dá-lhe parcelas, dá-lhe dívidas) para evitar o sentimento de frustração do filho. Aquele mesmo sentimento que ele vai ter de conviver a vida inteira e quando, finalmente, estiver de cara para o mundo real, não vai saber como se comportar.

Afasta as crianças delas mesmas porque incentiva o consumo de produtos, em sua maioria, que não estimulam interação e brincadeiras coletivas. O objeto de desejo da grande maioria das crianças, independente da classe social (as cartinhas de natal do Correios nos confirmam) é o tablet. Aquele instrumento tecnológico que sossega a criança (dando paz aos pais) justamente por lhe desconectar do que há em volta.

Ah, as brincadeiras coletivas! Bandeirinha, pique-esconde, bete, barra-manteiga… Sim, sei que hoje em dia as ruas estão mais perigosas. Mas adedonha, por exemplo, se brinca de qualquer mesa e não custa mais do que papel de rascunho e caneta.

São muitos os benefícios das brincadeiras coletivas. Além de exercitar as crianças (cada vez mais sedentárias), não custar nada, coloca em prática o difícil exercício da convivência. De aprender a perder. Aprender a trabalhar em conjunto. Aprender a lidar com perdas e frustrações. Entender que ninguém é igual a você.

Por fim, afasta as crianças delas mesmas e de todas as outras pessoas por valorizar um ato vazio de nobreza: o consumo e o domínio da tecnologia (aquele que é, sim, positivo, mas que pode ser desenvolvido em qualquer idade), enquanto as relações humanas ficam jogadas para segundo plano. Bonitinho é a criança já saber mexer no tablet. “Olha, você acredita que o dedinho dele vai certinho?”, diz a mãe orgulhosa sobre o filho que mal anda.

Quem está orgulhoso da relação dos filhos com seus irmãos? Da amizade que ela cria com as crianças diferentes dela?  Da forma como ela sabe dividir o que lhe pertence? Do olhar que ela tem para as crianças na rua e já sabe que aquilo não está certo? Do cuidado que ela tem com as pessoas que pedem ajuda a elas? Da forma como ela se interessa pelas histórias que os mais velhos contam? O orgulho é do domínio da tecnologia.

Os produtos, tão anunciados, cada vez mais se vinculam à tecnologia que aproxima do distante e afasta do que está próximo. Ano passado foi essa a foto publicada.


A criança aqui não é obrigada a gostar de Gilberto Gil. Eu, na idade dela, achava Hansons bem mais legal. E, sem dúvidas, o mundo que a tecnologia apresenta a ela dá muitas possibilidades de conhecimento que nós não tivemos nessa idade. De toda forma, essa conexão compulsiva com as tecnologias acaba afastando da vida real e das oportunidades que temos com quem está ao nosso lado todo dia.

Não estamos formando gente. Estamos formando consumidores. Incentivar a propaganda infantil é andar para trás. É dizer que essa formação está certa e colocar terra em cima do difícil trabalho de educação de pais, professores, educadores que têm buscado formar pessoas humanizadas, críticas, sensíveis, autônomas e com capacidade de cuidar do espaço onde vive e das relações que estabelece. Maurício, você me decepcionou. Eu, a Nádia que se apaixonou por suas histórias aos cinco anos.

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por Nádia Junqueira

*Nádia Junqueira é jornalista e mestre em Filosofia Política (UFG).

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