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O pesadelo da falta de água

22.04.2014 - 11:55:54
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A água é elemento natural, fundamental e insubstituível e exige de todos, Poder Público e sociedade, uma ação permanente pelo seu uso racional e pela sua preservação e conservação.
 
Dotado de fontes consideradas inesgotáveis, o Brasil se defronta, ultimamente, com um novo pesadelo: a falta de água. O problema já atinge grandes centros urbanos, como a cidade de São Paulo que, embora nascida na confluência de vários rios, viu a poluição tornar imprestáveis para consumo as fontes próximas e tem de captá-la de bacias distantes, alterando cursos d'água e a distribuição natural na região. 
 
Na última década, a quantidade distribuída aos brasileiros cresceu 30%, mas quase dobrou a proporção de água sem tratamento (de 3,9% para 7,2%) e o desperdício ainda assusta: 45% de todo produto ofertado pelos sistemas públicos.
 
Mesmo sendo o primeiro País em disponibilidade hídrica em rios do mundo, a poluição e o uso inadequado comprometem esse recurso em várias regiões do Brasil. Concentra em torno de 12% da água doce do mundo disponível em rios e abriga o maior rio em extensão e volume do Planeta, o Amazonas. Além disso, mais de 90% do território brasileiro recebem chuvas abundantes durante o ano e as condições climáticas e geológicas propiciam a formação de uma extensa e densa rede de rios, com exceção do semi-árido, onde os rios são pobres e temporários.

Essa água, no entanto, é distribuída de forma irregular, apesar da abundância em termos gerais. A Amazônia, onde estão as mais baixas concentrações populacionais, possui 78% da água superficial; e no sudeste essa relação se inverte: a maior concentração populacional do País tem disponível 6% do total da água.
 

A água limpa está cada vez mais rara na zona costeira e a de beber cada vez mais cara. Essa situação resulta da forma como o produto disponível vem sendo usado: com desperdício – que chega entre 50% e 70% nas cidades -, e sem muitos cuidados com a qualidade. Assim, parte da água no Brasil já perdeu a característica de recurso natural renovável (principalmente nas áreas densamente povoadas), em razão de processos de urbanização, industrialização e produção agrícola, que são incentivados, mas pouco estruturados em termos de preservação ambiental e da água.
 
Nas cidades, os problemas de abastecimento estão diretamente relacionados ao crescimento da demanda, ao desperdício e à urbanização descontrolada – que atinge regiões de mananciais. Na zona rural, os recursos hídricos também são explorados de forma irregular, além de parte da vegetação protetora da bacia (mata ciliar) ser destruída para a realização de atividades como agricultura e pecuária. Não raramente, os agrotóxicos e dejetos utilizados nessas atividades também acabam por poluí-la.
 
Goiás, que abriga três das principais bacias hidrográficas do País, tem uma preocupação especial com essa questão e decidiu promover, via Secretaria de Estado do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos (SEMARH), uma grande discussão a respeito, para melhor conhecer a problemática e já indicar os melhores caminhos.
 
O I Encontro das Águas de Goiás, no Centro de Convenções de Goiânia, que começa nesta quarta-feira, dia 23, e vai até a sexta-feira, dia 25, tem como tema principal “A água como fator de produção e sustentabilidade”, e vai envolver todos os setores da sociedade em um grande esforço de capacitação e debate do futuro da gestão das águas em Goiás. Com a iniciativa pretende contribuir para que se tenha água em quantidade e qualidade para os usos das atuais e futuras gerações.
 
Paralelamente, o II Seminário Estadual de Recursos Hídricos contará com várias palestras. Dentre os painéis, a discussão sobre a água e sua relação com a indústria, a mineração, a política, a gestão, a energia, a agricultura, a sociedade e o saneamento. Ao mesmo tempo, a preocupação com a produção de água e a sua ligação com um novo instrumento de organização do meio rural, o Cadastro Ambiental Rural (CAR).
 
O encontro é uma oportunidade especial de a sociedade civil se organizar para conhecer, definir suas pautas e se instrumentalizar para lutar por uma causa comum e fundamental: a defesa da água como recurso imprescindível à vida e a toda e qualquer atividade exercida pelo homem. 
 
*Jales Naves é jornalista e superintendente executivo da Secretaria de Estado do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos (SEMARH)
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por Jales Naves

*Mônica Parreira é repórter do jornal A Redação

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