Multiplicar é verbo e vocação natural do longa “5 Vezes Favela – Agora
por Nós Mesmos”, que o diretor Cacá Diegues produziu no ano passado e
que estreia no próximo dia 28, às 23 horas, no Multishow como série de TV.
Também dirigida por jovens cineastas moradores de comunidades carentes
cariocas, “Mais X Favela” terá 13 episódios e o humor cotidiano como
tema central. “Desde o 5 X Favela a gente brincava que tinha caldo para
uma série”, conta Cadu Barcellos, um dos diretores do filme, que divide a
série com Luciana Bezerra e Luciano Vidigal.
“5XFavela acabou criando uma família de cinema, discutindo filmes e
fazendo planos para o futuro. Foi assim que aqueles jovens cineastas
moradores de favela imaginaram o seriado que acabamos de produzir. À
Renata (de Almeida Magalhães) e a mim, coube-nos levar a ideia ao
Multishow e produzi-la”, explica Cacá Diegues.
A série se passa “numa favela qualquer do Rio” e conta a história de uma
família típica do subúrbio carioca, mas nem por isso comum, a partir de
três jovens – Junior (João Nascimento), Marco (Adriano de Jesus) e
Michelle (Karen Mota). Boi (Babu Santana) é um pai de família que recebe
em casa o filho adolescente, depois que a mãe do garoto foi arriscar a
vida como passista em Londres.
A situação não é fácil e o dinheiro é curto, mas a série é de humor,
então as transformações na casa de Boi são interpretadas com o jeito
divertido que é a marca do carioca. Na aventura cotidiana, Boi pode
sempre contar com a comadre Deise Careca, manicure vivida por Marília
Coelho. “Ela é danada, bagunceira, gosta de uma cervejinha”, detalha a
atriz que é amiga da Deise Careca real. “É uma manicure lá do Vidigal,
de quem eu já era fã”, diverte-se.
Cadu explica que a opção pelo humor na série tem a ver com a vontade de
mostrar a favela além do noticiário e da tragédia. “É o jeitinho
brasileiro, e também alguns aspectos bem atuais das comunidades, como o
personagem Júnior, que é o tipo de garoto que agora tem acesso à
tecnologia e se torna um nerd da favela. Sabia que também tem gênio na
favela?”, pergunta.
Tem sim, e tem também cineasta, roteirista, câmera, platô e todo tipo de
profissional de produção. Mérito do “5 X Favela”, o original de 1962,
que propôs a integração morro-asfalto pelo cinema, e de ONGs como Nós do
Morro e AfroReggae, que uniram audiovisual e cidadania. “Eu não me via
na TV, não via a (favela da) Maré naqueles personagens. O Cidade de Deus
(2002) veio com uma proposta diferente, mas a favela estava cansada de
sentar e só receber a luz”, observa Cadu.
Na integração cada vez mais intensa entre cinema e televisão, e no
acesso da classe C a serviços como TV a cabo e internet, Cacá Diegues vê
uma mudança irreversível. “É impossível tapar a vista para o que está
acontecendo na vida real do País. A ascensão das periferias das grandes
cidades está comandando uma série de modificações culturais e sociais no
País que a televisão não podia inaugurar”, anota Cacá. “O que estamos
fazendo com Mais X Favela é trazer para o primeiro plano, para o
protagonismo dramático, o que nas novelas fica sempre em segundo plano,
nos ‘núcleos dos pobres’.” As informações são do jornal O Estado de S.
Paulo. (Agência Estado)