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Acordo ortográfico para mortais

27.05.2014 - 09:23:42
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Goiânia – “No meio do caminho tinha uma pedra: o hífen.”

Evanildo Bechara brincou com o poema de Carlos Drummond de Andrade e falou sério sobre um dos grandes problemas do novo acordo ortográfico. 


O comentário atordoou grande parte da plateia que, na última sexta-feira (23/5), compareceu ao Tribunal de Justiça do Estado de Goiás para ouvir Bechara.

Filólogo e gramático, ele é, a meu ver, grande autoridade no assunto. É um defensor incondicional da necessidade do acordo, apresenta argumentos sólidos sobre isso e, quando o assunto é ensino de Língua Portuguesa, tem uma posição crítica.

“Eu faço um apelo para que voltemos a estudar a Língua Portuguesa. Para que não fiquemos na elucubração teórica da linguística e da análise do discurso”, disse o autor da Moderna Gramática Brasileira.

Meus estudos são quase sempre baseados no funcionalismo linguístico. Mas meu objetivo agora não é tomar partido no embate entre gramáticos e linguistas, e sim, falar sobre o novo acordo ortográfico, que afeta a vida de todos nós.

Bechara diz que a uniformidade oficial das línguas é necessária, e que o acordo é essencial para que isso aconteça. Mas não se esquiva quando questionado sobre os pontos fracos do documento e a oposição de vários estudiosos.

Acho necessário que se entenda o que é o acordo antes de imprimir aquelas dicas em uma página que circulam na internet.  Mais importante que parar de usar o trema é entender que a história de habitantes de oito países lusófonos vai passar a ser escrita de acordo com novas regras.

Não há como boicotar, por mais que sejamos contra. É lei. A partir de 1º de janeiro de 2016, a ortografia oficial seguirá, obrigatoriamente, as regras do novo acordo, que afeta cerca de 0,5% das palavras no Brasil.

Bechara acha que as pequenas deficiências do documento vão ser solucionadas naturalmente. Uma delas é o uso do hífen. 
Hora-extra ou hora extra? Segundo o parágrafo 1º da base XV do texto oficial do Novo Acordo Ortográfico de 1990, usa-se o hífen. E segundo esse mesmo parágrafo, não se usa. Depende do entendimento. 

Confuso? Então vamos falar das coisas mais simples, como os acentos. Não se acentuam mais os ditongos abertos das sílabas tônicas das palavras paroxítonas (a penúltima sílaba). Caso famoso é do da palavra I – DEI – A. Mas isso não ocorre em PA – PÉIS, que é uma oxítona e não se enquadra na regra. Ou seja, preserva o acento.

O trema não existe mais. Nem o acento usado para diferenciar as formas verbais PÁRA e PÉLA das preposições PARA e PELA. Mas o acento é mantido em PÔDE e PÔR, e olha só que maravilha: é opcional na palavra FÔRMA. Agora se escreve micro-ondas, minissaia, autoescola e contrarregra. 

Quando diz que toda mudança gera desconforto, Bechara tenta justificar a resistência às novas regras e diminuir a razão de seus contraditores, que defendem “teses sub-reptícias”, segundo ele. 

Mas as mudanças podem não parar por aí. Existe um projeto na Comissão de Educação do Senado Federal que intenta a implantação do sistema fonético no português. A intenção é fazer com que todas as palavras que tenham sons iguais sejam grafadas com a mesma letra. Então não se espantem se daqui a alguns anos estivermos escrevendo sinema, segonha, caza, aza e ezecutivo, por exemplo.

Mas não vamos nos estressar antes da hora.

Já que citei a palavra sub-reptícias (que quer dizer desleais, ilegais, fraudulentas), vou dividir a emoção que senti durante a palestra.

Ouvi muitas palavras que estavam sumidinhas. Outrossim, conquanto, ademais, deveras. Estava rodeada de membros da Academia Goiana de Letras. Bechara ocupa a cadeira 33 da Academia Brasileira de Letras. Eu era uma mortal no meio de tantos intelectuais, mas não era a única.


Quando Bechara se esqueceu por alguns instantes do tema de sua palestra e começou a analisar o significado verdadeiro de várias expressões usadas por Camões em Os Lusíadas, uma mocinha que estava sentada na fila de trás comentou com a amiga: “Tá mais fácil estudar grego, hein?”.
 
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por Leticia Borges

*Leticia Borges é especialista em Língua Portuguesa, jornalista, professora e palestrante.

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