Não tem um único dia de minha vida no qual eu não pense em minha aposentadoria. A possibilidade de ser remunerado para ficar em casa fazendo as coisas que gosto é o que me faz acordar todos os dias, desligar o maldito despertador do celular e encarar a labuta diária. Ler o que realmente quero ler, escrever o que realmente quero escrever, ouvir os discos de minha coleção admirando o encarte, viajar aproveitando promoções que não precisam conciliar com minhas férias e com a das crianças, cozinhar bebendo um bom vinho em plena quarta-feira com o almoço ficando pronto por volta de cinco da tarde… Enfim, fazer de qualquer dia ordinário um domingo.
Tenho total consciência de que essa é uma idealização. A vida real costuma ser mais dura do que nossos sonhos desenham. Provavelmente minha vista não vai estar boa para ler o tanto que quero, minhas costas vão estar doendo e não me deixarão passar muito tempo ao computador escrevendo, os discos não vão me seduzir como acontece hoje, viajar não será tão simples por ficar muitos dias longe do geriatra e beber vinho será desaconselhado por questões de saúde. Mas a vida é movida a poesia. E meu poema predileto é sonhar com os dias de aposentado.
É por tudo isso que entendo perfeitamente a decisão de Joaquim Barbosa de pedir sua aposentadoria. Eu não quero trabalhar um dia sequer além do que a lei me exige. Sou como um presidiário marcando na parede os dias que faltam para a liberdade. E só consigo me ver livre no dia em que bater o ponto não se impor mais como uma necessidade.
Muita gente tem o entendimento de que só se sai de um cargo honroso como o de ministro do Supremo Tribunal Federal quando não há mais possibilidade legal para exercê-lo. E Barbosa ainda tinha direito a mais de dez anos na função. É um bom argumento. Mas ele contraria algo que é mais forte em minha cabeça: a sensação de que o trabalho nada mais é do que atestar que você precisa pedalar a bicicleta para não cair e quebrar a cara no chão. Quando pedalar deixar de ser impositivo, não entendo a razão do esforço.
E, pense comigo: por que diabos Barbosa ficaria mais no Supremo? Quando no novo julgamento do crime de formação de quadrilha para os condenado do mensalão a tese de Barbosa foi derrotada, ficou claro que a nova composição dos ministros o colocou em posição de minoria. E, convenhamos, a personalidade que ele mostrou ao longo dos 11 anos no STF não é de aceitar ser encantoado. Qual a razão de ficar me ambiente onde suas defesas seriam diariamente derrotadas? A sedutora chance de respirar outros ares falou mais alto.
Eu acredito que Barbosa vai caminhar para o lado da política. Acho que essa não será sua saída definitiva da esfera pública brasileira. Em breve, devemos ter notícia de sua filiação a algum partido e ele estará por aí pedindo nosso voto. Acho que a presença de Barbosa em um pleito dignifica a eleição e aumenta a qualidade do debate. Se é isso que ele quer, que vá em frente.
Por hora, também achei fantástico pedido de aposentadoria na iminência da Copa do Mundo. Quem me dera poder ficar em casa assistindo todos os jogos da Copa do Mundo sem me preocupar com a massacrante rotina do trabalhador brasileiro. Ah, se eu pudesse…