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As armadilhas da dupla negativa

16.06.2014 - 16:52:39
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Goiânia – Dois colegas fizeram um trabalho conjunto e na hora de escrever o relatório surgiu um impasse. Ela escreveu “não havia nenhum equipamento no local”. Ele disse que isso era uma dupla negativa, que não se pode usar o pronome indefinido nenhum depois do advérbio não.

Depois de uma breve discussão, os dois me olharam e perguntaram: “e aí?”. 

Vamos à explicação. Embora pareça redundante, a dupla negativa é uma estrutura permitida na língua portuguesa. A lógica de que duas negativas levam a uma afirmativa fica para as ciências exatas. Então orações como “eu não quero nada”, “eu não vi ninguém” e “não havia nenhum equipamento” estão corretas, gramaticalmente e semanticamente.

Quando dizemos “eu não quero nada, não”, estamos utilizando uma negativa enfática, o que também é correto. Esse tipo de expressão é típica da oralidade, e não deve ser usada em textos formais.

Outro hábito muito comum é usar o pronome indefinido qualquer no lugar do pronome indefinido nenhum, como em “não havia qualquer equipamento no local”. Nesse caso haveria, de acordo com a norma culta, o uso de um pronome inadequado na dupla negativa. Mas a substituição recorrente levou alguns gramáticos a aceitar a estrutura.

Portanto, não há consenso sobre ser certo ou errado utilizar o qualquer com sentido de nenhum. Há apenas a recomendação de que se use a palavra mais certa para cada situação, evitando assim problemas como ambiguidade.

O pronome de intensidade sequer também anda sendo mal usado por aí. Quando alguém diz “ele sequer me telefonou no dia seguinte”, está fazendo uma lamentação incoerente. Sequer quer dizer ao menos. Faça a substituição e perceba que, para fazer sentido, é necessário acrescentar uma negativa, assim: “Ele nem sequer me telefonou no dia seguinte (ele nem ao menos me telefonou no dia seguinte)”.

A dupla negativa é um erro em construções com verbos como negar, impedir e evitar. Cito um questionamento que encontrei no Yahoo Respostas: “Por que o Lula insiste em negar que não sabia do mensalão?”. Se ele negou que não sabia, ele admitiu que sabia, o que definitivamente não foi o caso.

Então o correto seria complementar o verbo com uma oração positiva: “Por que o Lula insiste em negar que sabia do mensalão?”. Caso haja curiosidade de saber algumas das respostas, clique aqui.

*As sugestões para esta coluna serão sempre bem-vindas.
 

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por Leticia Borges

*Leticia Borges é especialista em Língua Portuguesa, jornalista, professora e palestrante.

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