Goiânia – Na língua portuguesa, assim como na área médica, na área jurídica e em tantas outras, existem mitos e verdades. Muitas regras falsas são difundidas por criadores de macetes e acabam induzindo ao erro. Existem professores que ensinam o aluno a acertar a questão, e não a usar a língua com propriedade.
Quando o que importa é a nota ou a aprovação em um concurso as técnicas de decoreba ainda são bastante usadas. Dão resultado muitas vezes. Mas para quem busca uma relação melhor com a linguagem, um desempenho melhor na escrita, é melhor esquecer esses truques e compreender de verdade como fazer um bom texto.
Veja algumas das muitas simplificações e lendas que podem atrapalhar na hora de melhorar o português:
1) A vírgula indica pausa breve. Sempre que você respirar, coloque uma vírgula.
Explicação: a colocação da vírgula nada tem a ver com o aparelho respiratório. Imagine como seria a pontuação de um mesmo texto por um asmático e por um praticante de ioga. A vírgula tem usos obrigatórios e usos proibidos. Na dúvida, respire fundo e consulte uma gramática.
2) Todo por que de pergunta é separado e todo porque de resposta é junto.
Macete trivial para não se perder nos porquês, que omite dois casos importantes do uso dessa expressão. É verdade que o por que da pergunta é separado e quando está no final leva acento. Mas nem sempre. Observe:
– Por que você não foi à festa?
– Você não foi à festa por quê?
– Você não veio porque (pois) estava doente?
Nas respostas, perguntas indiretas e orações afirmativas nem sempre é junto. Em toda oração, sempre que depois do por que couber a palavra motivo ou ele puder ser substituído por “pelo qual”, há separação.
– Gostaria de saber por que (motivo) você chegou atrasado.
– Eu sei por que (motivo) ela ainda não chegou.
– A estrada por que (pela qual) eu vim estava em péssimo estado.
Se não cabe a palavra motivo, e é sinônimo de "visto que" e "pois", escreve-se junto:
– Eu comprei pizza porque é minha comida preferida.
– Ela foi reprovada porque não estudou.
Se é substantivo, é junto, com acento e geralmente acompanhado de artigo.
– Me diga ao menos um porquê desta sua viagem repentina.
3) A craseado.
Quem passou a vida toda em dúvida sobre qual A é craseado e qual A não é craseado sofreu por uma coisa errada. O que existe na verdade é a crase, que é junção de dois fonemas iguais (A preposição e A artigo, na maioria das vezes) e é indicada pelo A com acento grave, ou seja: À. À é uma crase, não um A craseado.
4) Adjetivo dá qualidade.
Quando eu ouvia isso, ainda criança, achava que a palavra só era adjetivo quando era positiva. Se era negativa, deveria ser outra coisa. Não é assim. O adjetivo qualifica negativamente e positivamente.
5) No Maranhão se fala o melhor português do Brasil.
Isso é dito só porque lá eles usam a segunda pessoa (tu) e conjugam o verbo certinho. Mas em compensação, o estado tem um índice de analfabetismo de 20%. Como escolaridade e expressão verbal estão diretamente relacionadas, é pouco provável que alguém consiga comprovar essa lenda. Infelizmente.
Não é só isso. Em breve trago mais.
* Coluna editada com colaboração de Hamilton Carvalho.