Logo

A angústia de viver duas pandemias e um momento precioso

05.06.2020 - 16:27:54
WhatsAppFacebookLinkedInX

Jales Naves
Especial para o jornal A Redação

Goiânia – A longevidade que se verifica ultimamente, com algumas pessoas atingindo uma idade pouco comum até pouco tempo atrás, permitiu-lhes vivenciar situações que não gostariam de revivê-las novamente. Um desses casos é daqueles que atingiram ou estão próximos de completar 100 anos e puderam, em seu tempo, participar de episódios que marcaram suas existências.

 
Um desses episódios foi a famosa gripe espanhola, que eclodiu ao final da I Grande Guerra Mundial, em 1918, que infectou em torno de 500 milhões de pessoas, correspondentes a um quarto da população mundial da época, e que vitimou em torno de 50 milhões de indivíduos. Tornou-se uma das epidemias mais mortais da história da humanidade e uma das primeiras causadas pelo vírus influenza. Houve uma segunda fase, no início da década de 1920, que causou mais mortes, em especial de mulheres grávidas ou que tinham acabado de ter os seus filhos.
 
As condições sanitárias, naquela época, eram diferentes das de hoje. Não dispunham ainda de medicamentos mais eficazes, como a penicilina, de médicos, com os atendimentos sendo feitos mais por farmacêuticos, e nem de meios de comunicação ágeis, que trazem a informação em tempo real, como agora, que possibilitam a rápida adoção de medidas preventivas, com a devida urgência e eficácia.
 
Esse episódio marcou muitas pessoas, que perderam entes queridos, e que agora estão revendo, com muita angústia, essa história, que se repete com a mesma agressividade e rápida disseminação do vírus, já com números que nos perturbam.
 
Minha mãe, Maria Luíza Naves, que em julho chega aos 99 anos, conheceu duas pandemias e sentiu de perto a dor da perda de uma pessoa muito querida. Sua mãe, Maria de Araújo Oliveira e Silva, apelidada de Preta, que se casou em 1916, estava com forte gripe quando deu à luz, em 1923, a sua terceira filha – já tinha um menino, com seis anos, e duas meninas, uma com quatro e outra com dois anos. Era justamente essa maldita gripe espanhola e não resistiu. A criancinha já nasceu morta.
 
Preta, mineira de São Gotardo, de 1898, veio com os pais e outros familiares para essa região no início do século XX e se instalaram no município de Campinas. Morena, muito bonita, com olhos azuis, ela despertava paixões por onde passava e ao completar 18 anos casou-se com o jovem Osório Carlos da Silva, que tinha a mesma idade e ocupava, na época, o cargo de Procurador Fiscal do distrito de Trindade.
 


Maria Luíza Naves, em 2019 (Foto: Jales Naves)
 
Os filhos vieram na sequência: José Heinzelman da Silva, em 1917, Eliza Araújo de Oliveira, em 1919, e Maria Luíza Neta, no dia 25 de julho de 1921, que por ser a menorzinha ficou com o apelido de Nenzinha. Com a morte da mãe, os três foram criados pela avó paterna, homônima da caçula, Maria Luíza de Jesus, conhecida como Vó Iza, mineira do Triângulo.
 
Agora enfrentando uma nova pandemia, em grandes proporções e igualmente trazendo muita apreensão, ela rememorou alguns momentos preciosos na conversa que tivemos hoje, por telefone, já que o isolamento social não nos aconselha a ficar próximos, fisicamente. Estamos seguindo à risca a recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS), para evitar a propagação desse vírus que tanto nos incomoda e maltrata.   
 
Passados quase 100 anos e no calor dessa nova pandemia, ela se lembrou do que sua avó lhe contou: então na faixa dos dois anos de idade, como não tinha com quem brincar, Nenzinha saía pelo grande quintal da casa onde morava, em Trindade. Nessas pequenas e solitárias caminhadas, colhia os raminhos mais bonitos e verdes que encontrava e levava para sua avó, que os conhecia, para fazer seus chás milagrosos, da medicação caseira que utilizava, para dar à mãe dela, que tinha febre muito forte.
 
Em função do parto realizado naquele momento de forte gripe, que a deixou fragilizada, Preta ficava mais na cama, sem disposição para se levantar, o corpo com dores e cansada. Ela sobreviveu o quanto pôde, por uns 15 dias, quando a famigerada gripe espanhola também a levou do convívio com os familiares.

 

 
 
 
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Jales Naves

*

Postagens Relacionadas
José Israel
28.02.2026
Canetas emagrecedoras e pancreatite

O debate em torno das chamadas canetas emagrecedoras ganhou um novo e relevante capítulo com a divulgação, por parte da Anvisa, de dados sobre casos suspeitos de pancreatite e óbitos potencialmente relacionados ao uso desses medicamentos no Brasil. Embora os números ainda não permitam conclusões definitivas, eles desempenham um papel crucial ao acender um alerta […]

Mara Pessoni
28.02.2026
É possível solicitar um visto para os EUA apenas para assistir a um jogo do Brasil na Copa do Mundo?

É perfeitamente possível solicitar o visto americano para assistir a apenas um jogo da Copa do Mundo de 2026. Na verdade, grandes eventos esportivos são motivos comuns e legítimos para viagens de turismo. Como você já atua na área de imigração, sabe que o desafio não é a justificativa em si, mas a demonstração de […]

Roberta Muniz Elias
27.02.2026
Infância Sem Atalhos: Proteção Total

Diante da ampla repercussão pública nos últimos dias sobre o julgamento no TJ/MG, a proteção da dignidade sexual de crianças e adolescentes voltou a ocupar o centro do debate. Decisões judiciais que, de forma equivocada, tentaram relativizar a aplicação do art. 217-A do Código Penal – dispositivo que tipifica o estupro de vulnerável – suscitaram […]

Décio Gazzoni e Antônio Buainain
25.02.2026
O papel do engenheiro agrônomo na realidade contemporânea

O Acordo entre o Mercosul e a União Europeia significa um marco histórico nas trocas comerciais no mundo, pela amplitude de países, população e valores financeiros (PIB e trocas comerciais) envolvidos. É um exemplo acabado da realidade comercial contemporânea. Do ponto de vista da União Europeia, as vantagens apontam especialmente para uma abertura de mercado […]

Leonardo Ribeiro
24.02.2026
Quaresma: rumo ao deserto para escutar e viver

Com a graça de Deus iniciamos, unidos com a Igreja, o Tempo da Quaresma. Como todos os anos, neste período de quarenta dias, somos convidados a mergulhar com intensidade e coração aberto neste tempo propício de revisão de vida e conversão pessoal. A própria Liturgia da Quarta-Feira de Cinzas, que marca o início da Quaresma, […]

Ricardo Menegatto
17.02.2026
Prejuízos causados por eventos climáticos: quais são os direitos do consumidor?

Os alertas da Defesa Civil sobre tempestades severas tornaram-se parte da rotina de moradores de São Paulo e de diversas capitais brasileiras. Com eles, cresce também a apreensão quanto à possibilidade de quedas de energia elétrica e aos prejuízos que podem atingir residências, comércios e até a saúde de pessoas que dependem de equipamentos essenciais. […]

Carla Conti
14.02.2026
Educar com consciência planetária é um compromisso com a vida

A universidade é, historicamente, a casa do conhecimento. É nela que se formam profissionais de todas as áreas e onde se outorgam diplomas que autorizam a atuação no mundo. Mas esse gesto formal carrega uma responsabilidade que vai muito além da formação técnico-científica. Em um cenário marcado por crises ambientais, desigualdades sociais persistentes e pelo […]

Anna Carolina Cruz
13.02.2026
O tempo que não temos

Há dias em que a alma pede silêncio. Não o silêncio da ausência de barulho, mas o silêncio da consciência que desperta. Tenho pensado muito na forma como estamos vivendo. Corremos como se houvesse um incêndio permanente, como se cada mensagem ou e-mail não respondido fosse o fim do mundo, como se cada prazo fosse […]