Malgrado a visão obscurantista de muitas pessoas na atualidade, a filosofia é o campo basilar do conhecimento humano. Mesmo a ciência e a religião, os dois vértices que juntamente com o fazer filosófico constituem o triângulo sapiencial da civilização, estão sob a chave geral da filosofia. Assim, pois, tem a humanidade a seu dispor a filosofia da ciência e a filosofia da religião, bem como outros campos que se desdobraram a partir da ilação filosófica como, dentre outros, a filosofia da educação.
A filosofia do Ocidente surge com todo o vigor cultural na Grécia Antiga, a partir de nomes como Sócrates, Platão, Aristóteles e o conjunto de pensadores importantes conhecidos sob a rubrica geral de pré-socráticos. Como já foi observado por diversos pensadores ao longo do tempo, é quase impossível encontrar algum conceito no âmbito das ideias que já não tenha sido, pelo menos, mencionado pelos notáveis pensadores gregos da antiguidade.
Dentre os importantes nomes helênicos da filosofia, Platão se tornou célebre pelos seus diálogos, forma pedagógica com que redigiu seus escritos, sem os arabescos conceituais e sistêmicos que a filosofia desenvolveria mais tarde em seus tratados extensos e complexos. Um de seus diálogos mais importantes recebeu o título de “A República”. Nele, é apresentada conversação entre o filósofo Sócrates e seus discípulos sobre a constituição de uma cidade utópica, idealizada sob a perspectiva do justo, do bom e do belo, conceitos que são minuciosamente apresentados pelo filósofo ao longo da obra.
No âmbito do cristianismo, Santo Agostinho estabelece o diálogo entre a fé cristã e o pensamento platônico. Em “A Cidade de Deus”, escreve o santo cristão a sua admiração pela engenhosidade humana em todas as instâncias de atividades e saberes, mencionando a musicalidade humana: “Que diversidade de sinais, a palavra e a escrita, em primeiro lugar, para exprimir os pensamentos! Que riqueza de adornos na eloquência e na poesia, para deleitar o espírito! E, para agradar o espírito, quantos instrumentos de música e que diversidade de cantos compôs!”
Ao tratar do tema da educação necessária à juventude da cidade idealizada, Sócrates afirmará em cerca de quarenta passagens a importância da música como método educativo essencial para as gerações que se constituiriam sob a perspectiva filosófica de uma ética avançada, livre de obscurantismos éticos e estéticos limitantes da capacidade e do potencial humanos.
Afirma Sócrates no Livro III de “A República”: “É, decerto, por esta razão [estética], meu caro Glauco, que a educação musical é a parte principal da educação, porque o ritmo e a harmonia têm o grande poder de penetrar na alma e tocá-la fortemente, levando com eles e a graça e cortejando-a, quando se foi bem-educado”. Mais adiante, afirma o filósofo que a música foi criada para a alma, ensinando, ainda, que a razão aliada à música se constitui na guardiã da virtude.
Ou seja, do que preceitua Sócrates, a música funciona como método e instrumento pedagógico fundamental na filosofia da educação, constituindo as atividades que a promovem um importantíssimo elemento formador da educação do indivíduo em sua dupla dimensão de ser social e individual.
Neste contexto pedagógico da filosofia da educação, Goiás tem promovido uma educação de qualidade para os educandos goianos de todas as faixas etárias em atividades que transcendem o espaço da sala de aula.
Festival em Goiás
Na década de 60 do século passado, o cantor Chico Buarque de Hollanda compôs a música “A Banda”, que se tornou grande sucesso por conta de sua melodia e letra que trazia em si uma aparente ingenuidade, mas que dizia muito sobre o período turbulento da política brasileira daquele momento. A letra da canção começa de maneira simples e vai aos poucos imergindo nas complexidades do seu tempo: “Estava à toa na vida/O meu amor me chamou/Pra ver a banda passar, cantando coisas de amor. // A minha gente sofrida/Despediu-se da dor/Pra ver a banda passar/Cantando coisas de amor”.
Em evento aberto ao público, nos dias 14 e 15 de dezembro ocorre no Ginásio Goiânia Arena a primeira edição do Festival Arte Educativo de Goiás – FAEGO, quando todos poderão ver as bandas passarem em suas performances, numa promoção do Governo do Estado de Goiás através da Secretaria de Estado da Educação. O FAEGO é uma iniciativa do projeto Arte Educa, que contempla todas as linguagens artísticas na promoção educacional dos jovens goianos.
Nesta edição, o foco do FAEGO incidirá sobre a linguagem da música instrumental com shows de bandas de percussão, fanfarra, bandas marciais e bandas musicais numa perspectiva platônica dessa manifestação artística em consonância com a pedagogia. O evento de 2021 conta com uma estrutura ampla, envolvendo cerca de 2000 estudantes e professores da rede pública de Goiás, 30 unidades escolares de diversas regiões do Estado e 12 Coordenações Regionais de Educação – CREs.
O FAEGO, de maneira global, caracteriza-se como uma ação formativa, de cunho artístico e cultural que objetiva a promoção do projeto Programa Arte Educação Goiás Ciranda da Arte, tendo como protagonistas os arte educadores de bandas e fanfarras e os alunos da rede pública goiana. O projeto tem, ainda, por base, as propostas diretivas e formativas da Base Nacional Comum Curricular e os Documentos Curriculares de Goiás – DCGO Ampliado e do Ensino Médio.
O Festival Arte Educativo de Goiás objetiva, com suas ações, desenvolver e valorizar a produção artística voltada para as atividades de criação, reflexão e crítica da interação entre a arte e a cidadania, assim como postulava Sócrates na concepção de sua cidade imaginária. Realiza, pois, a educação pública goiana um trabalho educacional a partir da arte com a consistência que a tradição filosófica fundadora da cultura ocidental instaurou na antiguidade helenística.
*Gismair Martins Teixeira é pós-doutorando em Ciências da Religião pela PUC-GO; Doutor em Letras e Linguística pela UFG; professor e pesquisador do Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte da Seduc-GO.