Logo

A Barragem do João Leite e os municípios inundados

14.10.2011 - 20:56:56
WhatsAppFacebookLinkedInX

 


Em que pese à necessidade de abastecimento de milhares de pessoas em Goiânia, por meio do Programa de Água Potável e Saneamento de Goiânia, uma grande injustiça está ocorrendo nos municípios que tiveram suas terras ocupadas pelas águas da barragem do Ribeirão João Leite, de propriedade da Saneago. Diferentemente das barragens de produção de energia hidroelétrica, onde os municípios recebem a devida compensação financeira por terem suas terras alagadas, nos represamentos exclusivos para retenção de água para consumo humano, como no caso da Barragem do Ribeirão João Leite, não existe nenhuma previsão legislativa
para o recebimento de royalty ou qualquer forma de compensação financeira.

A compensação financeira, resultado da exploração de recursos hídricos para fins de geração de energia elétrica, foi instituída pela Constituição Federal de 1988, em seu artigo 20, § 1º, e regulamentada pela Lei nº 7.990/1989, que indeniza os Estados, o Distrito Federal e aos Municípios, bem como a órgãos da administração direta da União. Assim municípios como Itumbiara, Caldas Novas, Minaçu, Catalão, bem como vários outros, recebem a devida compensação financeira. Os referidos benefícios minimizam os prejuízos e transtornos causados pelo alagamento de suas terras.

No caso dos municípios de Goianápolis, Teresópolis, Ouro-Verde e Campo Limpo, que tiveram grande parte de suas terras alagadas pela barragem do Córrego João Leite, nenhuma indenização foi recebida e nenhum royalty foi acordado com a Saneago, com o Estado ou União; sendo que nada foi pago pelos inúmeros prejuízos que estes municípios estão sofrendo.

O Estado indenizou as propriedades particulares, mas os municípios com a perda de território sofrem um  enorme prejuízo financeiro. Diferentemente de outras barragens que são exploradas para Lazer e Turismo, as águas da barragem do Córrego João Leite não podem ser exploradas ou navegadas e nem um lambari pode ser pescado. Até um simples banho naquele reservatório é coibido sob a alegação de possível poluição.

A estes municípios só restou o ônus, já que são responsáveis por evitar e coibir que atividades poluidoras em qualquer área próxima ao espelho d’água e nos afluentes que cortem os referidos municípios e desemboquem na represa do João Leite, não podendo,
inclusive, receber investimentos de vários tipos de indústrias e empresas que acaso queiram investir nos referidos municípios.

Com isso todas as atividades agrícolas, que contenham algum potencial mínimo de poluição com plantações, estão proibidas ou sujeitas a multa e embargos por conta da represa do João Leite, já que se utilizam de defensivos agrícolas para o fomento das atividades.

Hoje o município de Goianápolis, que era grande produtor de tomate, perdeu 70% de suas terras e a população está desempregada. O projeto básico ambiental da barragem e do reservatório de Regularização e acumulação do Ribeirão João Leite em Goiânia, disponível na Internet assegura que: “a gestão ambiental do empreendimento estabelece os seus fundamentos no arcabouço legal pertinente e na articulação interinstitucional necessária a sua efetivação. Sua concepção busca favorecer e estimular sempre a participação da sociedade”.

Recentemente a Delegacia Estadual do Meio Ambiente (Dema), inaugurou espetacularmente o novo helicóptero da Polícia Civil, com um sobrevôo acima da captação do reservatório na bacia do Ribeirão João Leite, e identificou até um canteiro de obras da própria Saneago como fonte de poluição, demonstrando assim que a responsabilidade pela manutenção do lago tem de ser de todos os interessados e não apenas dos municípios atingidos pelas águas da barragem.

Em artigo para o jornal A Redação o secretário do Meio Ambiente e Recursos Hídricos de Goiás Leonardo Vilela assegurou que “O Estado de Goiás vai adquirir cerca de 800 hectares para criar uma faixa de preservação nesta área, impedindo, dessa forma, a expansão regular e irregular de projetos imobiliários que começam a migrar para aquele espaço. O parque estadual é um presente dado ao povo goiano, já que oferece ali um espaço dissipador que se contrapõe às ilhas de calor formadas dentro das cidades”. Serão mais 800 hectares perdidos pelos referidos municípios, ou seja, para melhorar a vida dos goianienses, os nossos vizinhos que arcarão com a conta.

Assim como não existe lei especifica para realizar a devida compensação financeira, não resta aos referidos municípios senão buscar na Justiça o ressarcimento por esse grave dano econômico ou esperar que nossos políticos, como é o caso do secretário do Meio Ambiente que é Deputado Federal, articulem e promulguem uma lei específica no Congresso Nacional para sanar essa lacuna legislativa.

Edilberto de Castro Dias é advogado, Ex-conselheiro e membro da Comissão de Direito Constitucional OAB/GO e Social Media

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Edilberto Dias

*

Postagens Relacionadas
José Israel
28.02.2026
Canetas emagrecedoras e pancreatite

O debate em torno das chamadas canetas emagrecedoras ganhou um novo e relevante capítulo com a divulgação, por parte da Anvisa, de dados sobre casos suspeitos de pancreatite e óbitos potencialmente relacionados ao uso desses medicamentos no Brasil. Embora os números ainda não permitam conclusões definitivas, eles desempenham um papel crucial ao acender um alerta […]

Mara Pessoni
28.02.2026
É possível solicitar um visto para os EUA apenas para assistir a um jogo do Brasil na Copa do Mundo?

É perfeitamente possível solicitar o visto americano para assistir a apenas um jogo da Copa do Mundo de 2026. Na verdade, grandes eventos esportivos são motivos comuns e legítimos para viagens de turismo. Como você já atua na área de imigração, sabe que o desafio não é a justificativa em si, mas a demonstração de […]

Roberta Muniz Elias
27.02.2026
Infância Sem Atalhos: Proteção Total

Diante da ampla repercussão pública nos últimos dias sobre o julgamento no TJ/MG, a proteção da dignidade sexual de crianças e adolescentes voltou a ocupar o centro do debate. Decisões judiciais que, de forma equivocada, tentaram relativizar a aplicação do art. 217-A do Código Penal – dispositivo que tipifica o estupro de vulnerável – suscitaram […]

Décio Gazzoni e Antônio Buainain
25.02.2026
O papel do engenheiro agrônomo na realidade contemporânea

O Acordo entre o Mercosul e a União Europeia significa um marco histórico nas trocas comerciais no mundo, pela amplitude de países, população e valores financeiros (PIB e trocas comerciais) envolvidos. É um exemplo acabado da realidade comercial contemporânea. Do ponto de vista da União Europeia, as vantagens apontam especialmente para uma abertura de mercado […]

Leonardo Ribeiro
24.02.2026
Quaresma: rumo ao deserto para escutar e viver

Com a graça de Deus iniciamos, unidos com a Igreja, o Tempo da Quaresma. Como todos os anos, neste período de quarenta dias, somos convidados a mergulhar com intensidade e coração aberto neste tempo propício de revisão de vida e conversão pessoal. A própria Liturgia da Quarta-Feira de Cinzas, que marca o início da Quaresma, […]

Ricardo Menegatto
17.02.2026
Prejuízos causados por eventos climáticos: quais são os direitos do consumidor?

Os alertas da Defesa Civil sobre tempestades severas tornaram-se parte da rotina de moradores de São Paulo e de diversas capitais brasileiras. Com eles, cresce também a apreensão quanto à possibilidade de quedas de energia elétrica e aos prejuízos que podem atingir residências, comércios e até a saúde de pessoas que dependem de equipamentos essenciais. […]

Carla Conti
14.02.2026
Educar com consciência planetária é um compromisso com a vida

A universidade é, historicamente, a casa do conhecimento. É nela que se formam profissionais de todas as áreas e onde se outorgam diplomas que autorizam a atuação no mundo. Mas esse gesto formal carrega uma responsabilidade que vai muito além da formação técnico-científica. Em um cenário marcado por crises ambientais, desigualdades sociais persistentes e pelo […]

Anna Carolina Cruz
13.02.2026
O tempo que não temos

Há dias em que a alma pede silêncio. Não o silêncio da ausência de barulho, mas o silêncio da consciência que desperta. Tenho pensado muito na forma como estamos vivendo. Corremos como se houvesse um incêndio permanente, como se cada mensagem ou e-mail não respondido fosse o fim do mundo, como se cada prazo fosse […]