Estava com um amigo em um bar conversando sobre aquilo que mais motiva conversa fiada acompanhada de chope: futebol. Refletíamos sobre uma coisa essencial e que muitas vezes é subestimada na partida, o drible. Chegamos à conclusão de que realmente um drible pode ser mais bonito que o gol. Era o Dener, aquele que era da Portuguesa e Vasco e que morreu em 1994, quem dizia isso: um drible pode ser mais bonito que o gol. Observação corretíssima. Ele não ganha jogo, mas é aquilo que mais excita a torcida.
Existem dribles e dribles. Eu, particularmente, tenho uma predileção pelo chapéu. Jogar a bola por cima do adversário e, na corrida, pegar do outro lado é de emocionar. Quando um jogador do meu time dá um bonezinho no seu marcador, comemoro como gol. Meu amigo já acha a caneta mais legal. Segundo ele, é a humilhação suprema do futebol meter a bola debaixo das pernas do adversário e pegar do outro lado. Na argumentação dele, a caneta é quase uma invasão da intimidade, onde a bola passa por um território que não a pertence e desnorteia quem foi sua vítima. Não chegamos a um consenso sobre qual drible seria o mais legal, mas ambos reconhecemos a beleza do lance que goza da preferência do outro.
Um gol que envolve drible é sempre difícil de ser esquecido. Gols de cabeça em cruzamentos, por exemplo, só entram para a história se acontecerem em momentos mágicos. Um exemplo seria aquele do flamenguista Rondinelli na final do Carioca de 1978 contra o Vasco. Mas, de forma geral, gols de cabeça não são históricos. Um gol com drible não. Ele marca de verdade. Quem não se recorda da arrancada genial de Maradona na Copa de 1986? Ou aquele que o Neymar aprontou para cima do Ronaldo Angelim? Ou ainda o corte do Romário para cima do Amaral? O drible é algo que marca.
Existem dribles e dribles. O drible legal é aquele em direção ao gol, que desorienta o marcador pelo inesperado, pela não previsibilidade do ato. O drible para o lado e sem foco na escola do Denílson tem o risco de ser irritante. Ele tem seu valor, é claro, mas pode levar o torcedor à loucura caso o resultado da partida não seja favorável à equipe do driblador. A falta de objetividade faz com que o drible aparente mera firula sem sentido. E quando seu time está perdendo, a única coisa que você não quer ver é firula sem sentido.
Quando tem um jogador com habilidade para o drible em campo, naturalmente prestamos mais atenção quando ele pega na bola. Sabemos que, quando menos se espera, o atleta pode dar aquela finta de deixar todo estádio boquiaberto e estupefato. Um drible desorientador tem esse poder. E toda atenção é pouca para não perdermos o drible. Dá até raiva quando estamos no estádio e, por distração, perdemos aquele momento mágico do drible.
Deveriam criar um Oscar para os dribles. Eles seriam divididos em categorias e ganhariam prêmios no final do campeonato. O melhor chapéu, o melhor drible da vaca, a melhor caneta… Daria gosto de assistir uma premiação assim. Seria uma forma de homenagear esses lances de plasticidade ímpar no futebol. Certeza que Garrincha aprovaria essa ideia.