Goiânia – Amanhã é o aniversário de Goiânia. Temos um belo feriado para comemorar os 79 anos da cidade. A folga também nos faz pensar nos caminhos que estamos trilhando. O que estamos fazendo, o que estamos priorizando, o que almejamos para o lugar onde vivemos. Na maior parte das vezes, sou um otimista recalcado. Mantenho essa postura quando vou refletir sobre Goiânia.
Todo 24 de outubro é marcante para mim desde 1985. Nesse ano, no aniversário de Goiânia, nasceu minha irmã. Desde então, em todo feriado temos uma atividade familiar para comemorar mais um ano de vida da Paola. E também sobra tempo para pensar como Goiânia está hoje, como estava ontem e o que esperar de amanhã. É inegável que nossa cidade está em uma encruzilhada digna de Robert Johnson: ou mantém as rédeas e continua uma cidade decente para vivermos, ou pega o caminho “vida loka” e entra no vale tudo pelo progresso e grana. Nem preciso dizer de qual lado dessa luta me filio, né?
A real é que Goiânia precisa parar de crescer. Temos que compactar mais nossa cidade, respeitando as áreas verdes e nascentes, deixando o viver mais racional. A cidade tem que ser prioridade do ser humano e não do veículo automotor. Se as pessoas querem fazer sua corrida no meio da Ricardo Paranhos, na boa, dane-se o carro! A preferência deve ser de quem está vivendo e não transitando sozinho, poluindo e ocupando espaço. E, por favor, não me venha com discursos quilométricos nos comentários. Isso é princípio e nada vai me fazer pensar diferente: a prioridade de uma cidade deve ser a pessoa, não o carro.
Tenho um exemplo disso. Moro em Goiânia desde que nasci. O máximo que fiquei longe da cidade foi um mês que passei no Recife. Habito no mesmo bairro há 31 anos, nas proximidades da Praça do Avião. Frequento esse local desde quando não tenho memória. Joguei bola ali, soltei pipa, andei de skate, pedalei na antiga pista de bicicross, quebrei o braço brincando no antigo avião, comi X-Tudo, arrumei namorada, fiquei bêbado, aprendi tocar violão, levei minha filha mais velha para brincar e hoje sou um habitué com meu cachorro e a caçula. Nesse longo período, vi a retirada da praça na mão dos garageiros, vi a decadência, o abandono do local e a reocupação pelas famílias. Sabe o que restaurou a vida na Praça do Avião? A instalação de semáforos para pedestres na pista que circunda a praça e a reforma do local. O que antes era dos carros (garageiros e uma via sem acessibilidade de pedestres) foi ganha pelas pessoas. Não tem mistério.
O que percebo é que ainda não tivemos real vontade política para enfrentar o egoísmo do veículo automotor e dificultar sua vida. Quem anda de carro tem que pagar mais caro, tem que demorar mais e tem que ter mais canseira. Em contrapartida, o transporte público e os modais alternativos têm que ser mais ágeis, mais rápidos e conceder tratamento mais digno aos usuários. Sem a resolução dessa equação, qualquer debate sério sobre o futuro de Goiânia é completamente inócuo.
Goiânia ainda tem jeito. Diferentemente de vários amigos que optaram por morar em cidades maiores e mais cosmopolitas como Brasília, São Paulo ou Rio de Janeiro, não tenho pretensão de sair daqui. Para falar a verdade, os acho bem loucos. Se for para mudar de Goiânia, só se for para uma cidade menor. De preferência, ao lado do mar. Caso contrário, prefiro ficar onde estou mesmo. De estresse, já estou satisfeito. E para não aumentar a tensão que já é morar em Goiânia, é preciso ação. Senão pode ser tarde demais.