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A China vista pela leitura – parte 4B

22.07.2024 - 09:47:03
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Como anotei no meu último artigo aqui em A Redação,  o caminho que percorre Yan Lianke para construir sua narrativa que é forte e carregada de simbolismo, tem como ponto de partida uma tradição da literatura chinesa – o poder do sonho. E ele traz este elemento desde a epígrafe bíblica, baseada em sonhos do faraó e seus auxiliares no Antigo Egito, até o sonho de seu avô:

Assim como é óbvio que as nuvens trazem chuva e o fim do outono traz frio, era óbvio que os aldeões que haviam vendido seu sangue dez anos antes iriam contrair “a febre” [Aids] e deixar este mundo como as folhas mortas que o vento fazia cair das árvores no outono. (…) A doença escondia-se no sangue como meu avô imergia em seu sonho. A doença amava o sangue como meu avô amava o sonho. Meu avô sonhava todas as noites…”

Seu estilo é caracterizado por um realismo forte, em que às vezes o narrador não poupa o leitor dos detalhes mais sombrios e dolorosos da tragédia. Ao mesmo tempo, ele coloca na sua narrativa elementos de surrealismo e fantasia, e isso cria uma atmosfera onírica que intensifica o impacto emocional da obra.

Um dos pontos mais notáveis do romance é a profundidade com que Lianke explora o sofrimento humano. Ele retrata de forma visceral a desesperança e a vulnerabilidade dos aldeões, ao mesmo tempo em que critica duramente a corrupção e a negligência do governo. Através de personagens bem desenvolvidos, o autor consegue transmitir a complexidade das relações humanas em meio à crise, destacando tanto a solidariedade quanto o egoísmo que emergem em situações extremas.

Além disso, "O Sonho da Aldeia Ding" serve como uma crítica social e ética sobre o tema da pandemia da AIDS. Yan Lianke usa essa tragédia para abordar questões maiores, como a ganância, a desigualdade social e a falta de responsabilidade ética das autoridades na aldeia. Sua crítica é incisiva e corajosa, desafiando o leitor a refletir sobre as implicações morais e sociais das políticas governamentais.


Capa do livro 'O Sonho da Aldeia Ding' (Foto: divulgação)

Enfim, "O Sonho da Aldeia Ding" é uma obra profundamente comovente e provocativa que solidifica Yan Lianke como um dos mais importantes escritores vivos da China. Sua habilidade em mesclar realidade e fantasia, junto com sua coragem em abordar temas delicados, faz deste romance uma leitura essencial para aqueles que desejam entender mais sobre as complexidades da sociedade chinesa e as consequências humanas das políticas governamentais. É uma obra que não apenas narra uma história, mas também oferece um olhar crítico e necessário sobre o mundo em que vivemos.

Se o benévolo leitor quiser conhecer mais sobre Lianke, recomendo este vídeo no YouTube

Yan Lianke, apesar das adversidades e do controle rígido do governo chinês sobre a liberdade de expressão, continua residindo na China e escrevendo sobre temas sensíveis. Ele conseguiu encontrar um espaço dentro do sistema, adaptando-se às restrições impostas pela censura. Sua habilidade em navegar pelas complexidades da censura chinesa é notável e reflete sua resiliência e determinação em continuar seu trabalho literário.



Yan Lianke (Foto: divulgação)

Ao contrário de outros escritores que emigraram da China para o Ocidente (Hai Jin, Gao Xingjian e Dai Sijiie), Lianke continua morando na China e se acomodou a esse sistema de averiguação prévia de seus escritos, como se tivesse conseguido o seu espaço e pode até mesmo publicar sátiras leves (e nem tão elaboradas) como "A serviço do povo" – que não recomendo, mas onde ele destrói alguns tabus chineses. Seus romances são a voz de um homem contra o regime, sobre o qual o Autor demonstrar que continua usando métodos antidemocráticos, não extirpou a corrupção e mantém práticas autocráticas contra quaisquer opositores.



Obra 'A serviço do povo' (Foto: divulgação)

Yan Lianke teve que se adaptar ao sistema de censura chinês para continuar publicando suas obras. Essa acomodação não significa complacência, mas uma estratégia para manter sua voz ativa dentro de um regime que controla rigidamente o discurso público. Yan tem usado essa tática para publicar obras críticas e satíricas que, de outra forma, poderiam ser completamente banidas.

Um livro secundário – “A serviço do povo”. Para o analista, este é aquele tipo de livro bobinho que vende muito e justifica risos e críticas ao regime, tem sensualidade e crítica social, mas é bem mal escrito. Até mesmo o próprio autor chamou a atenção para isso, afirmando para o site de LitHub: “Independentemente de como você possa avaliar esta obra, no entanto, não acredito que seja particularmente significativa dentro do contexto da minha obra geral. É apenas uma marca, evento e memória dentro da minha vida e obra, e definitivamente não é uma obra-prima. Leitores que gostam de Serve the People! devem ler Hard Like Water.”

"A Serviço do Povo" é uma sátira que exemplifica a habilidade de Yan em criticar o sistema de maneira que possa passar pelos censores. A história, que envolve um soldado e a esposa de seu superior, aborda temas de hipocrisia e corrupção dentro do Partido Comunista Chinês (PCC) de maneira velada, usando o humor e a ironia para contornar a censura. O conto foi publicado na China, mostrando que, mesmo sob rigorosa supervisão, Yan conseguiu inserir críticas incisivas ao regime.

Os romances de Yan Lianke representam uma voz contra o regime. Mesmo que ele tenha que submeter seus escritos à averiguação prévia, suas obras continuam a desafiar e criticar as práticas autocráticas do governo. Ele aborda questões como corrupção, desigualdade e injustiça social, temas que são frequentemente censurados na China. Através de sua escrita, Lianke dá voz às preocupações e sofrimentos do povo chinês, funcionando como uma forma de resistência literária.

Pelo que se sabe, o regime chinês continua a usar métodos antidemocráticos e práticas autocráticas para suprimir qualquer forma de dissidência. Yan Lianke, ao continuar a escrever e publicar dentro deste sistema, expõe as falhas e os abusos do governo. Sua obra é uma crítica constante e corajosa ao autoritarismo, e ele utiliza sua plataforma para destacar a repressão enfrentada por muitos na China.

Em conclusão, Yan Lianke é um exemplo significativo de um escritor que, mesmo sob um regime repressivo, continua a utilizar sua arte para criticar e desafiar o status quo. Sua habilidade em se adaptar às restrições da censura enquanto mantém uma voz crítica é uma prova de sua engenhosidade e determinação. Ele próprio afirmou que é preciso escrever com dignidade. E assim, obras como "O Sonho da Aldeia Ding" e "A Serviço do Povo" (bem inferior em termos de narrativa) são testemunhos da sua coragem e compromisso em abordar temas difíceis e importantes, oferecendo uma visão crítica do governo chinês e suas práticas. A resiliência de Yan Lianke inspira muitos e reafirma o papel essencial da literatura como meio de resistência e reflexão sobre a vida, o amor, a política e a importância da arte para se viver com dignidade. No artigo para a LitHub, Lianke diz que não deseja que as pessoas parem de descrevê-lo como o autor mais censurado da China. “Em vez disso, peço que vocês simplesmente digam que sou um autor chinês. É o suficiente dizer que sou um autor com alguma retidão e independência básicas.” – conclui Lianke. Se desejar ler o artigo inteiro, em inglês, visite LitHub. Até à próxima, viajando para a China através da leitura.

*Adalberto Queiroz é jornalista e poeta, membro da Academia Goiana de Letras e autor de Os fios da escrita (ensaios literários, 2017)
 
Leia também:
A China vista pela leitura (parte 4 – A)
A China vista pela leitura (parte 3)
A China vista pela leitura (Parte 2 B)
A China vista pela leitura (Parte 2 A)
A China vista pela leitura

 
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por Adalberto Queiroz

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