Goiânia – Lá vou eu pisar em terreno pantanoso de novo… Com a certeza do linchamento nas redes sociais, vou falar o que está engasgado na minha garganta desde que rolou o polêmico resgate dos beagles no Instituto Royal no interior paulista na última sexta: eu achei a atitude dos ativistas voluntarista. Muita paixão pela causa, pouca razão para analisar os fatos.
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Já jogou todas as pedras? Já cuspiu as labaredas de fogo? Já me xingou muito no twitter? Já me esculhambou nos grupos de defesa animal do Facebook? Ok, eu já esperava isso. Quem está na chuva é para se queimar, já nos ensinou Vicente Matheus. Agora deixe-me seguir adiante na argumentação.
Eu considero a Sociedade Brasileira de Progresso da Ciência (SBPC) uma entidade de respeito. Ela goza de credibilidade, ao menos comigo. Veja a opinião da instituição acerca do ocorrido divulgado por meio de comunicado em seu site oficial.
“A invasão do Instituto Royal, em São Roque, nesta madrugada, com a retirada de cães usados em pesquisa e a depredação de parte de suas instalações, revela o desconhecimento por parte de quem praticou tais atos sobre a importância da utilização de animais para o desenvolvimento de novos medicamentos e tratamentos para o ser humano bem como de outras espécies animais.
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O Instituto Royal já realizou várias pesquisas, que contribuíram para o desenvolvimento de novos medicamentos e biofármacos para a indústria farmacêutica nacional e que já foram depositados na Anvisa, para os procedimentos regulatórios exigidos pela agência, colaborando assim ativamente para o desenvolvimento da ciência e da inovação nacional.
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A comunidade científica gostaria ainda de deixar claro que os estudos e pesquisas desenvolvidos nas dependências do Instituto são elaborados por profissionais capacitados de renome internacional, e contam, inclusive, com acompanhamento de representantes de entidades protetoras dos animais.”
Segundo o médico e presidente da SBPC Marcelo Morales, “milhões de reais foram jogados no lixo e anos de pesquisas para o benefício dos brasileiros e dos animais também foram perdidos”.
Para termos desde a dipirona básica que nos salva da ressaca até o medicamento mais complexo que deixará nossa avó sem aquele maldito câncer que nos aterroriza, alguém tem que passar antes pelo teste. É justo fazer com a vovó doente? Não acho. Se os cientistas afirmam que os animais mais apropriados sejam cachorrinhos bonitinhos, paciência. Antes o bichinho que qualquer ser humano.
Qual seria a alternativa desses testes? Usar em presidiários? Mendigos? Usuários de crack?
Vamos avançar na polêmica e partir para o campo da alimentação. Não tenho vergonha da minha posição humana no topo da cadeia alimentar. É duro ter que dizer isso, mas somos animais. E, como não fazemos fotossíntese, precisamos retirar nossa força vital de outros seres vivos. Seja a batata, seja a coxa de galinha. Matamos algo para comer. Não seria viável manter mais de 7 bilhões de pessoas do planeta a base de frutos que caem dos galhos ou, sei lá, lacticínios ou ovos que não envolvam a morte de outros seres vivos. E se formos levar adiante a questão dos maus tratos, não daria para incluir esses produtos de origem animal.
Ou arranjamos uma guerra mundial para exterminar gente a dar com pau ou vamos ter que matar outros seres vivos com fins alimentícios. É prazeroso dizer isso? Não. Mas a vida é dura mesmo.
É claro que não é defensável o abate cruel de animais para alimentação. Assim como é inaceitável o sofrimento desnecessário das cobaias em testes da indústria farmacêutica. Segundo o que foi mostrado, os laboratórios do Instituto Royal são signatários de tratados internacionais de respeito aos animais. E dizem os especialistas que os beagles são padrão mundial para teste de medicamentos por conta de sua similaridade com o organismo humano.
Antes de me acusarem de inimigo dos animais, aviso que meu cachorro é adotado. Crio galinhas no meu quintal que nem sonho abater (uma delas, cega, morreu de causas naturais, só para dar uma ideia do tamanho do zelo que tenho por elas). Sou bastante simpático aos movimentos de defesa dos bichinhos.
Ainda assim, considero o resgate da semana passada extremado e passional. É provável que um dia tenhamos tecnologia para não precisar fazer uso de animais nesse tipo de teste. Torço para que seja rápido. Enquanto isso não é possível… Que façam o que deve ser feito.
E para ser coerente, os ativistas deveriam abdicar do uso de qualquer medicamento que fez teste em animais para seu desenvolvimento. Isso inclui até deixar a vovó morrer de câncer em situação extrema. Como eu disse, não quero ver a avó de ninguém morrendo. Se o preço que precisamos pagar para salvar a vovó seja testar antes no beagle, toquemos esse bonde.