Logo

A culpa é da mulher

19.09.2012 - 10:54:17
WhatsAppFacebookLinkedInX

Goiânia – Há exatamente um ano eu começava essa coluna com a proposta, inicial, de escrever sobre as minhas experiências do Intercâmbio em Portugal. No dia 19 de setembro de 2011 eu estava há três dias (dos quase 170) na Europa e, a essa altura, ainda não tinha ideia do que significava, na prática, o preconceito com as mulheres brasileiras. Ainda não imaginava que sentiria de perto essa agressão em Portugal.

A menos de um ano depois de conhecer esse preconceito (semana passada) leio a notícia de que uma goiana foi assassinada em Braga. De acordo com Jornal de Notícias, de Portugal, ela era prostituta. Seus documentos foram roubados e, por isso, seu corpo não pode ser trazido para o Brasil. A minha indignação, para além da morte, é com a naturalidade ou indiferença que lidam com o fato. Prostitutas, estudantes, trabalhadoras lidam, cotidianamente, com essa agressão. Que tira a paz e tira vidas. E isso parece natural.

Em Bragança, onde morei, há o famoso episódio das “mães de Bragança”. Há seis anos havia muitas prostitutas brasileiras na cidade de 30 mil habitantes. Os maridos começaram a deixar suas famílias, por conta das tais. As “mães de Bragança” foram à imprensa indignadas com a afronta à moral da família, repercutindo até mesmo no The New York Times. O resultado foi que botaram todas as brasileiras para correr dali. Anos depois, eu e tantas meninas de todo o país fomos passar um tempo na cidade para estudar (diga-se de passagem, depois de processo de seleção e com financiamento do governo português) e tivemos que conviver com o ranço preconceituoso com as brasileiras.

De piadinhas a agressões. Da dificuldade em fazer amizades a brigas nas ruas. Dentro e fora da sala de aula. O preconceito é latente. Jovens que dão murro em brasileiras na esquina. Crianças perseguindo e batendo em duas amigas minhas quando ouviram o sotaque brasileiro. “Bate, irmã, bate que é puta”. Esse último episódio talvez seja uma das coisas mais bizarras que presenciei na vida, por se tratar de crianças. Isto é, um discurso tosco e absurdo de preconceito que tem sido reproduzido e ensinado a crianças. Não se trata de pessoas de meia idade ou idosos. Estamos lidando com jovens e, como nesse caso, com crianças.

Às estudantes, esse tratamento. Às prostitutas, morte. O que não deve passar despercebido é que o caso de Fabiana não é isolado. Não é uma exceção em meio a uma regra. A mim, parece o inevitável. O desfecho de um preconceito que começa ameno, discreto; passa pelas ruas, pelo comércio, pela universidade até chegar, ao extremo, nos pontos de prostituição.

Se não sabem como começar a discutir ou lidar com o problema da prostituição, dentro e fora do país, que comecem garantindo, pelo menos, o direito à vida. Que garantam a dignidade às brasileiras que saem do país para estudar, ser garçonete, professora ou vender o corpo. Que abram os olhos para os problemas migratórios e de intercâmbio.  

O caso de Fabiana e das tantas prostitutas brasileiras em Portugal passa, novamente, pelo direito à vida com limitações. Com vírgulas. É como o caso (que escrevi recentemente aqui) de quem pode ser assassinado pela polícia e quem não pode. Traficante pode, “cidadão de bem” não pode. Prostituta pode ser assassinada ou agredida, estudante não pode. Nem eu, nem Fabiana, nem nenhuma brasileira tem direito a ser agredida, humilhada ou assassinada. E já passou da hora desse preconceito latente e tosco deixar de passar despercebido entre as relações Brasil-Portugal.

A dificuldade, no entanto, em enfrentar esse problema mora ao lado da concepção de mulher, dentro da boa moral da sociedade. Em Portugal e no Brasil. No dia em que li a notícia da morte de Fabiana, coincidentemente ou ironicamente, presenciei esse diálogo no salão de beleza, entre duas manicures (Sic em todo o diálogo).  

– Hoje vi uma coisa arrupiante!
– Conta, que quero arrupiar também!
– Vindo pra cá, um homi com zíper aberto, numa árvore, tentando agarrar uma moça. Ela tava com as roupa tudo aberta, quando me viu, fechou e saiu correndo.
– Mas gente, sem vergonhice às seis da manhã!? Que safada!
– Que seis! Eram oito!
– Eita, que essa mulher ta barata demais, ein! Nem pra ir prum motel? Tudo bem dar de graça, mas podia exigir um lugarzinho melhor, né não?
– É, esse mundo tá perdido… o homem, vai lá, é homem. Mas ela? A essa hora? Isso me dá raiva.
A outra, passado um silêncio, insiste no assunto.
– Ai, que nojo! Essas muié de hoje em dia não têm valor mesmo.

A começar, para mim há 90% de chances desse caso ter se tratado de uma tentativa de estupro. E, sem saber, a manicure ajudou a mulher a sair correndo. Corriqueiros casos como esses a essa hora. E aí que pensei que a mulher merece o que passa! Merece porque tem culpa.

A mulher vai para balada de saia curta e batom vermelho. Aí o cara tenta agarrá-la sem que ela queira. Merece, não se valoriza! A mulher dá uns beijos em um rapaz, permite uns amassos e depois não quer transar. Ele força a barra e ela acaba transando sem querer. Mereceu! A mulher enche a cara no bar e acaba na cama de um cara sem se lembrar de nada. Mereceu também! A namorada é pega traindo o namorado e então é espancada. Bem feito! A mulher sai do Brasil para vender seu corpo em Portugal e é assassinada. Merece!

Todos esses casos em nada se distinguem dos do romance de Jorge Amado, “Gabriela, cravo e canela”, que se passa em 1920 no interior da Bahia. A esposa assassinada por trair o marido. A moça que perde a virgindade antes do casamento e por isso tem como única saída ser prostituta. Essas mulheres todas passam pelo que passam, porque tem culpa. Quase cem anos depois, elas ainda têm.

Enquanto a mulher sempre tiver culpa, ela vai se virar para seu travesseiro antes de dormir com o olho roxo (de agressão ou de chorar). Enquanto ela for merecedora de todas as agressões que sofre, os altos índices de violência contra a mulher não vão diminuir. Enquanto o preconceito for natural, Fabianas, faxineiras, estudantes ou qualquer brasileira continuarão a sofrer agressões e correr risco de vida em Portugal. Ou no Brasil.   

Leia mais: Pela diversidade cultura, fomos às ruas

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Nádia Junqueira

*Nádia Junqueira é jornalista e mestre em Filosofia Política (UFG).

Postagens Relacionadas
Joias do Centro
27.02.2026
Uma árvore, muitas camadas de memória na Rua 20

Carolina Pessoni Goiânia – Há árvores que oferecem sombra. Outras oferecem memória. Quem passa pela Rua 20 talvez veja apenas mais uma delas, de grande porte, em frente ao antigo casarão que abrigou a primeira moradia de Pedro Ludovico e, mais tarde, a Faculdade de Direito que deu origem à Universidade Federal de Goiás (UFG). […]

Meia Palavra
27.02.2026
‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’ leva humor, aventura e bondade para Westeros

Se tem um universo que parece ter gerado uma terrível ressaca coletiva é o de Game of Thrones. Após o final patético da série e duas temporadas ocas de A Casa do Dragão, parecia que qualquer tentativa de retomar esse mundo no streaming não teria a menor chance de reconquistar a boa vontade da audiência. […]

Noite e Dia
27.02.2026
Evento na sede da OCB/GO marca lançamento do maior congresso de cooperativas de crédito do mundo; veja fotos

Carolina Pessoni Goiânia – O Sistema OCB/GO lançou, nesta quinta-feira (26/2), o 16º Congresso Brasileiro do Cooperativismo de Crédito (Concred), maior evento do cooperativismo financeiro no mundo. A apresentação foi realizada no edifício Goiás Cooperativo, em Goiânia, com a presença do presidente do Sistema OCB/GO, Luís Alberto Pereira; do presidente da Confederação Brasileira das Cooperativas […]

Noite e Dia
25.02.2026
Prêmio Mais Influentes da Política em Goiás reúne autoridades e personalidades em Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – A entrega das premiações da edição 2026 do Prêmio Mais Influentes da Política em Goiás foi realizada nesta segunda-feira (23/2). Promovido pela Contato Comunicação, a 16ª edição foi realizada na Câmara de Goiânia, no Auditório Jaime Câmara. O reconhecimento contempla os nomes mais citados por jornalistas e formadores de opinião do […]

Projetor
24.02.2026
Talvez

Já falei em outros artigos sobre a dificuldade de opinar toda semana. Há motivos pessoais e questões culturais envolvidas nisso. Em termos pessoais, tenho opiniões duras a depender do assunto. De forma geral, entretanto, é a dúvida que me guia. São características enraizadas em toda uma história de vida das quais não se pode escapar. […]

Noite e Dia
23.02.2026
Posse solene de desembargadora do TJGO reúne autoridades em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A solenidade de posse da desembargadora Laura Maria Ferreira Bueno foi realizada na última sexta-feira (20), no Plenário Desembargador Homero Sabino de Freitas, na sede do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO), em Goiânia. Sob a condução do chefe do Poder Judiciário estadual, desembargador Leandro Crispim, a cerimônia cotou […]

Curadoria Afetiva
22.02.2026
Cerradim e um Jardim

A ideia de formatar o evento “Cerradim” partiu do desdobramento do “Projeto Goianins”, realizado ano passado, com oficinas criativas para crianças típicas e atípicas, cujo resultado dos trabalhos artísticos foram projetados nas paredes dos muros dos moradores da rua do entorno do Jardim Potrich. A idealização desse espaço multicultural sempre esteve vinculada a duas principais […]

Joias do Centro
20.02.2026
Feira Dom Bosco: raízes, tradição e trabalho na região central de Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Antes mesmo de o sol firmar presença no céu de Goiânia, as ruas do Setor Oeste já começam a ganhar outro ritmo. O cheiro de fruta cortada, o peso das caixas descarregadas ainda na madrugada e as primeiras conversas entre fregueses antigos anunciam que é dia de feira. Às terças e […]