Goiânia – Há exatamente um ano eu começava essa coluna com a proposta, inicial, de escrever sobre as minhas experiências do Intercâmbio em Portugal. No dia 19 de setembro de 2011 eu estava há três dias (dos quase 170) na Europa e, a essa altura, ainda não tinha ideia do que significava, na prática, o preconceito com as mulheres brasileiras. Ainda não imaginava que sentiria de perto essa agressão em Portugal.
A menos de um ano depois de conhecer esse preconceito (semana passada) leio a notícia de que uma goiana foi assassinada em Braga. De acordo com Jornal de Notícias, de Portugal, ela era prostituta. Seus documentos foram roubados e, por isso, seu corpo não pode ser trazido para o Brasil. A minha indignação, para além da morte, é com a naturalidade ou indiferença que lidam com o fato. Prostitutas, estudantes, trabalhadoras lidam, cotidianamente, com essa agressão. Que tira a paz e tira vidas. E isso parece natural.
Em Bragança, onde morei, há o famoso episódio das “mães de Bragança”. Há seis anos havia muitas prostitutas brasileiras na cidade de 30 mil habitantes. Os maridos começaram a deixar suas famílias, por conta das tais. As “mães de Bragança” foram à imprensa indignadas com a afronta à moral da família, repercutindo até mesmo no The New York Times. O resultado foi que botaram todas as brasileiras para correr dali. Anos depois, eu e tantas meninas de todo o país fomos passar um tempo na cidade para estudar (diga-se de passagem, depois de processo de seleção e com financiamento do governo português) e tivemos que conviver com o ranço preconceituoso com as brasileiras.
De piadinhas a agressões. Da dificuldade em fazer amizades a brigas nas ruas. Dentro e fora da sala de aula. O preconceito é latente. Jovens que dão murro em brasileiras na esquina. Crianças perseguindo e batendo em duas amigas minhas quando ouviram o sotaque brasileiro. “Bate, irmã, bate que é puta”. Esse último episódio talvez seja uma das coisas mais bizarras que presenciei na vida, por se tratar de crianças. Isto é, um discurso tosco e absurdo de preconceito que tem sido reproduzido e ensinado a crianças. Não se trata de pessoas de meia idade ou idosos. Estamos lidando com jovens e, como nesse caso, com crianças.
Às estudantes, esse tratamento. Às prostitutas, morte. O que não deve passar despercebido é que o caso de Fabiana não é isolado. Não é uma exceção em meio a uma regra. A mim, parece o inevitável. O desfecho de um preconceito que começa ameno, discreto; passa pelas ruas, pelo comércio, pela universidade até chegar, ao extremo, nos pontos de prostituição.
Se não sabem como começar a discutir ou lidar com o problema da prostituição, dentro e fora do país, que comecem garantindo, pelo menos, o direito à vida. Que garantam a dignidade às brasileiras que saem do país para estudar, ser garçonete, professora ou vender o corpo. Que abram os olhos para os problemas migratórios e de intercâmbio.
O caso de Fabiana e das tantas prostitutas brasileiras em Portugal passa, novamente, pelo direito à vida com limitações. Com vírgulas. É como o caso (que escrevi recentemente aqui) de quem pode ser assassinado pela polícia e quem não pode. Traficante pode, “cidadão de bem” não pode. Prostituta pode ser assassinada ou agredida, estudante não pode. Nem eu, nem Fabiana, nem nenhuma brasileira tem direito a ser agredida, humilhada ou assassinada. E já passou da hora desse preconceito latente e tosco deixar de passar despercebido entre as relações Brasil-Portugal.
A dificuldade, no entanto, em enfrentar esse problema mora ao lado da concepção de mulher, dentro da boa moral da sociedade. Em Portugal e no Brasil. No dia em que li a notícia da morte de Fabiana, coincidentemente ou ironicamente, presenciei esse diálogo no salão de beleza, entre duas manicures (Sic em todo o diálogo).
– Hoje vi uma coisa arrupiante!
– Conta, que quero arrupiar também!
– Vindo pra cá, um homi com zíper aberto, numa árvore, tentando agarrar uma moça. Ela tava com as roupa tudo aberta, quando me viu, fechou e saiu correndo.
– Mas gente, sem vergonhice às seis da manhã!? Que safada!
– Que seis! Eram oito!
– Eita, que essa mulher ta barata demais, ein! Nem pra ir prum motel? Tudo bem dar de graça, mas podia exigir um lugarzinho melhor, né não?
– É, esse mundo tá perdido… o homem, vai lá, é homem. Mas ela? A essa hora? Isso me dá raiva.
A outra, passado um silêncio, insiste no assunto.
– Ai, que nojo! Essas muié de hoje em dia não têm valor mesmo.
A começar, para mim há 90% de chances desse caso ter se tratado de uma tentativa de estupro. E, sem saber, a manicure ajudou a mulher a sair correndo. Corriqueiros casos como esses a essa hora. E aí que pensei que a mulher merece o que passa! Merece porque tem culpa.
A mulher vai para balada de saia curta e batom vermelho. Aí o cara tenta agarrá-la sem que ela queira. Merece, não se valoriza! A mulher dá uns beijos em um rapaz, permite uns amassos e depois não quer transar. Ele força a barra e ela acaba transando sem querer. Mereceu! A mulher enche a cara no bar e acaba na cama de um cara sem se lembrar de nada. Mereceu também! A namorada é pega traindo o namorado e então é espancada. Bem feito! A mulher sai do Brasil para vender seu corpo em Portugal e é assassinada. Merece!
Todos esses casos em nada se distinguem dos do romance de Jorge Amado, “Gabriela, cravo e canela”, que se passa em 1920 no interior da Bahia. A esposa assassinada por trair o marido. A moça que perde a virgindade antes do casamento e por isso tem como única saída ser prostituta. Essas mulheres todas passam pelo que passam, porque tem culpa. Quase cem anos depois, elas ainda têm.
Enquanto a mulher sempre tiver culpa, ela vai se virar para seu travesseiro antes de dormir com o olho roxo (de agressão ou de chorar). Enquanto ela for merecedora de todas as agressões que sofre, os altos índices de violência contra a mulher não vão diminuir. Enquanto o preconceito for natural, Fabianas, faxineiras, estudantes ou qualquer brasileira continuarão a sofrer agressões e correr risco de vida em Portugal. Ou no Brasil.
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