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A falta que você faz

06.08.2012 - 12:15:33
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Querido Márcio, 
 
Domingo será o quarto Dia dos Pais que não passamos juntos. É impossível não tentar imaginar que presente eu compraria para você, a sua cara de felicidade ao abrir o pacote. É impossível não pensar na falta que, a despeito de tudo o que me ensinaram sobre o tempo que ameniza as perdas, você continua a fazer. 
 
É claro que a data colabora para a lembrança, mas a saudade não obedece ao calendário. Ela surge no meio do expediente, diante de coisas mínimas, quase banais. Como o dia em que eu estava conversando com o Marcinho no Facebook e ele me lembrou que você chamava as pessoas de quem gostava de “minha flor”.  
 
Nessa hora, fechei os olhos e pude me imaginar na nossa casa no Centro, descendo as escadas, no dia do meu aniversário em 2008. Você já havia sofrido a isquemia e não podia mais sair para comprar um presente que fosse a minha cara. Então você me deu algo que tinha a sua cara, e que me emocionou como poucas coisas na vida.
 
Você colheu uma flor do nosso pequeno jardim, colocou numa tacinha de prata – que, para a contrariedade da minha mãe, você transformou em vaso – e num pequeno guardanapo escreveu “Feliz Aniversário”. Tudo isso (foto acima) estava ao lado da minha xícara, na mesa do café. Tão singelo e tão de coração.
 
É engraçado pensar na nossa história. Quando nos conhecemos, há 24 anos, ficou claro que você não tinha a pretensão de tomar o lugar do meu pai e que eu também não me propunha a ser a filha que você, que já tinha quatro rapazes, nunca teve. Estabelecemos uma convivência respeitosa e pacífica, cada um no seu canto.
 
Mas o afeto foi surgindo com o tempo, e, talvez, justamente por termos sido tão despretensiosos, se tornou forte como uma rocha. Quando tive dengue pela primeira vez, ouvi você dizer ao moço da farmácia pelo telefone que ele trouxesse logo o remédio, porque a sua filha estava muito doente. Então estava feito: não éramos mais apenas padrasto e enteada. 
 
Foi de você que recebi pela primeira vez um buquê de rosas e um livro do Vinícius de Moraes – “Para uma menina com uma flor”.  Mais que presentes, eram a sua tentativa de mostrar àquela garota de 16 anos brava e brigona que havia dentro dela uma mulher sensível, que gostava de flores, poesia e, claro, de amor. 
 
É verdade que demorei para te conhecer em profundidade e, sobretudo, para te entender. Na imaturidade da minha adolescência, eu não compreendia porque um médico formado numa faculdade tradicional do Rio de Janeiro, que havia feito especialização na França, insistia em andar de Fiat 147 e trabalhar em hospitais públicos. 
 
Enquanto seus contemporâneos ganhavam rios de dinheiro atendendo em consultórios chiques, você estava em hospitais do entorno do Distrito Federal, trabalhando em locais que eram conhecidos pela violência e pela miséria, no Programa de Saúde da Família do Parque Atheneu ou no Cais de Campinas.
 
Até que um dia você foi me contar sobre a época em que trabalhou na Cruz Vermelha, durante a Guerra Civil em Angola, e sobre o tempo em que cuidava dos índios no Xingu. Falava das aventuras, das dificuldades, mas, principalmente, da paixão pela medicina. Foi então que eu me dei conta de que você era um humanista. 
 
Entendi, também, que sua teimosia em andar naquele carro antigo era uma forma de resistência aos padrões atuais, que determinam que ter é importante que ser. Você só queria ser. E era. Era uma raras pessoas que conheci que não desejavam nada de ninguém, que conseguiam querer o que se tem, que estavam felizes com a própria vida. 
 
Era também o anti-herói. Teimoso, só fazia o que queria, e, apesar da profissão, morria de medo de sentir dor e de morrer. Morria de medo do inferno e dos castigos de Deus. Comia escondido o que não podia, bebia o que não devia. E com tudo isso me ensinou a ser mais humana, mais tolerante.  
 
Pensar no anti-herói humanista e amoroso é um alento. Aliás, acho que é um conforto para toda filha. Quando os homens no mundo nos maltratam, quando quase nos convencem de que não valemos nada, é esse olhar de pai que nos traz de volta para a rota da autoestima. É ele que nos lembra que existem homens bons, que apesar de suas falhas e limitações, podem nos amar de verdade. 
 
Quando estou assistindo a um filme com a minha mãe, ficamos nos perguntando o que você diria sobre aquele ator, sobre aquele diretor, sobre aquele continente. Quando temos alguma dúvida sobre história ou geografia, pensamos o que nossa “pequena enciclopédia Barsa” diria se estivesse ali.
 
Aliás, dizer era com você mesmo. Um dizer com gestos delicados, que deixava nas entrelinhas seu enorme afeto. Como naquela vez em que eu fiquei tão triste, que parei de comer. E emagreci tanto, que precisava comprar roupas nas seções de moda infantil. Enquanto as pessoas me criticavam pela magreza, você corria o Centro em busca das frutas que eu mais gostava e comemorava comigo cada quilo recuperado. 
 
Seu dizer sem palavras mais inesquecível foi o do hospital, dois dias antes da sua partida. Enquanto esperava os enfermeiros chegarem ao quarto para levá-lo para a UTI você, que de tão fraco não conseguia falar, olhou para mim e, juntando os dedos, fez um coração. É lá também, doutor, do lado esquerdo do peito, onde você está – e sempre estará – guardado em mim. Feliz Dia dos Pais. 
 
Com muitas saudades,

Fabrícia

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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

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